O hábito de roer as unhas, presente na vida de muitas pessoas, em alguns casos desde a infância, esconde riscos graves e subestimados, segundo especialistas.
O que parece uma mania inofensiva pode se transformar em um grave problema de saúde, culminando em infecções que exigem intervenção cirúrgica e, em casos extremos, a perda de um dedo.
O médico Jefferson Braga Silva, especialista em cirurgia de mão e ex-presidente da Sociedade Brasileira de Cirurgia da Mão, afirma que a boca é um ambiente altamente contaminado.
Ao roer as unhas, a pessoa rompe a barreira protetora da pele e das estruturas que formam e sustentam a unha —como a cutícula e o leito ungueal—, permitindo que bactérias presentes na boca sejam transferidas para o dedo. ‘Quando você tira essa bactéria e coloca ela num outro meio, você acaba tendo um problema de infecção”, afirma Silva.
A infecção pode rapidamente deixar de ser superficial. Segundo o médico, a proximidade do osso com a extremidade distal do dedo facilita que a infecção óssea, conhecida como osteomielite, se desenvolva, especialmente se o tratamento adequado não for procurado a tempo.
O tratamento da osteomielite é complexo, pois os antibióticos têm dificuldade de penetração no osso, muitas vezes exigindo procedimentos como raspagem ou curetagem para remover o osso contaminado. Em uma falange distal, um segmento ósseo pequeno, isso pode causar um dano irreversível.
Sinais de alerta e a importância da busca por um especialista
O especialista enfatiza a importância de procurar ajuda médica ao menor sinal de problemas. “Eu gostaria que as pessoas procurassem o cirurgião de mão antes de fugir do controle”, afirma Silva. Vermelhidão, calor e dor na região são considerados uma urgência médica.
“Ao menor sinal de vermelhidão, de calor e de dor, é considerado uma urgência médica, ou seja, esse paciente, essa pessoa, tem que procurar um serviço de emergência e solicitar um especialista em cirurgia de mão para que ele possa interromper esse agravamento ou essa evolução para uma infecção.”
Além da transferência de bactérias, o trauma constante na cutícula e na matriz da unha compromete a barreira de proteção natural. O médico explica que, ao roer a unha, estruturas como a cutícula ou o hiponíquio podem ser rompidas, permitindo a entrada de bactérias.
As sequelas de uma infecção severa podem incluir a osteomielite e a necessidade de remoção do segmento infectado. Em casos mais graves, a unha pode nunca mais voltar a crescer se a infecção atingir a matriz ou o leito ungueal.
Drama nos EUA
A gravidade desse hábito foi vivida de perto por Gabby Swierzewski, em fevereiro, em uma história reportada pela revista People. Gabby, que roía as unhas desde a infância, viu um simples “unheiro” (paroníquia, que é a inflamação ao redor do dedo) evoluir para uma infecção assustadora.
“Isso começou em 6 de fevereiro; inicialmente começou como um unheiro, e era extremamente doloroso”, contou ela à publicação.
Apesar de ser algo comum, a situação piorou rapidamente. Seu dedo ficou “extremamente inchado”, e mesmo após antibióticos e drenagem, a infecção persistiu. No Dia dos Namorados, 14 de fevereiro, o dedo de Gabby ficou roxo e latejando intensamente, levando-a à emergência, onde médicos drenaram múltiplos abscessos.
O caso foi tão grave que um especialista em mãos o descreveu como “o pior caso que ela já tinha visto” em alguém tão jovem. Em 19 de fevereiro, Gabby passou por uma cirurgia de urgência para limpar a infecção, com temor de que tivesse atingido o osso ou que ela pudesse perder a unha ou o dedo. Em 4 de março, médicos confirmaram que não seriam necessárias mais cirurgias ou amputações.
A experiência transformou a percepção de Gabby sobre o hábito. “É um tópico de conscientização muito importante e parece que muitas pessoas não sabiam que roer as unhas poderia causar um problema tão grande, incluindo eu mesma”, afirmou. Ela agora está mais consciente e determinada a abandonar o hábito.
Fonte: CNN Brasil
Foto: Oksana Fishkis/Freepik


