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Calote dos brasileiros bate recorde com juros altos

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Nunca houve tantos brasileiros inadimplentes nem dívidas em patamares tão elevados como agora no País. Pior: o ritmo de crescimento dos débitos já supera a inflação acumulada nos últimos dez anos. O que chama a atenção é que esse aperto no bolso do consumidor ocorre mesmo com a taxa de desemprego na mínima histórica, a renda real dos trabalhadores batendo recorde de alta e a economia crescendo.

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Reduzir a inadimplência que afeta hoje 81,7 milhões de brasileiros, com dívidas não pagas que somavam R$ 539 bilhões em fevereiro deste ano, segundo a datatech Serasa Experian, virou foco de preocupação do governo, sobretudo em ano eleitoral.

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Mas o que explica essa aparente contradição entre o bom desempenho da macroeconomia e a dificuldade nas finanças pessoais? O pano de fundo, segundo economistas especializados em crédito ouvidos pelo Estadão, é a elevada taxa de juros.

A Selic ficou por muito tempo estacionada em 15% ao ano, o maior nível em duas décadas. Em 18 de março, o juro básico teve um ligeiro recuo para 14,75%.

Além dos juros elevados, o alto comprometimento da renda dos brasileiros é apontado por especialistas como um fator que turbinou a inadimplência.

Em meados do ano passado, por exemplo, cada brasileiro estava, em média, com 70,5% da sua renda comprometida com pagamento de dívidas assumidas e com contas básicas do dia a dia, como água, luz, telefone e aluguel, revela pesquisa da datatech.

Por faixa de renda, o cenário é ainda pior. Quem ganha um salário mínimo por mês (R$ 1.621) tinha 90% da renda comprometida com dívidas e com contas básicas. E quem recebe dois salários mínimos (R$ 3.242), 80%. De acordo com a datatech, 78% dos inadimplentes têm renda de até dois salários mínimos.

“Isso mostra o quanto o brasileiro está supercomprometido e nos ajuda a entender por que estamos no nível recorde de inadimplência no Brasil, mesmo com o mercado de trabalho superaquecido”, afirma a economista-chefe da Serasa Experian, Camila Abdelmalack.

O dado sobre comprometimento de renda da Serasa supera de longe o do Banco Central (BC), que não inclui contas básicas. O comprometimento de renda com dívidas, segundo o BC, alcançou 29,3% em janeiro deste ano, maior patamar da série iniciada em 2005, incluindo o financiamento imobiliário. Quando é excluído o crédito para compra da casa própria, o comprometimento da renda recua para 27,1%.

Luiz Rabi, economista-chefe da Enótita Investimentos, escritório de investimentos da XP, observa que o comprometimento da renda, sem considerar os financiamentos imobiliários, é elevado e cresceu cerca de três pontos porcentuais do final de 2023 até janeiro deste ano, segundo dados do BC.

Mesmo com a renda aumentando, diz o economista, o serviço da dívida, que é composto pela amortização e os juros, cresceu mais. Por isso, o endividamento está pesando mais no orçamento. “É isso que gera inadimplência: as pessoas acabam comprometendo demais a sua vida com as dívidas, às vezes não por culpa delas, mas por culpa de algo externo, que foi o aumento dos juros.”

Silvanete Almeida Cavalcanti, de 44 anos, pedagoga, mãe de um casal de filhos, por exemplo, sentiu no bolso o efeito bola de neve dos juros altos. Dez anos atrás, ela gastou R$ 300 no cartão de crédito com compras. Na época, perdeu o emprego e não conseguiu pagar a fatura.

Resultado: a pendência no cartão de crédito estava no mês passado em R$ 10 mil. Por causa dos juros, a dívida começou a crescer de uma forma que ela não conseguiu dar conta.

“Quem paga aluguel, tem filho, tem despesas pessoais, não vai tirar um dinheiro que é usado para cuidar da família para pagar isso aí (a dívida em atraso) que está num valor alto”, diz a pedagoga.

No mês passado, Silvanete, que toca um negócio próprio vendendo ervas e temperos e tira cerca de R$ 3 mil por mês, conseguiu sair da inadimplência.

Num feirão de renegociação, obteve um desconto de 99% na pendência. A dívida de R$ 10 mil foi liquidada R$ 157 à vista. Outras dívidas não pagas de compras no varejo e contas de energia elétrica, que somavam R$ 1,8 mil, foram renegociadas com um pequeno abatimento e parceladas em quatro vezes.

A partir de agora, ela não pretende usar mais cartão de crédito e seguir a vida com mais cautela, sem se endividar. “Conseguir crédito é fácil, difícil é pagar.”

Oferta de crédito

Camila lembra que houve uma grande oferta de crédito nos últimos tempos por causa do avanço da bancarização da população, com novas instituições financeiras, como fintechs e bancos digitais, entrando no mercado.

Entre 2016 e 2026, por exemplo, a fatia dos bancos e financeiras na inadimplência foi a que mais cresceu, com alta de 14,4 pontos porcentuais. Em 2016, a participação era de 32,7% e subiu para 47,1% em fevereiro deste ano, segundo a Serasa. Isso deixou os tomadores de crédito mais sujeitos à alta dos juros.

Também a participação das contas básicas na inadimplência aumentou no mesmo período, porém com menor intensidade comparada à dos bancos e financeiras. A fatia das contas básicas na inadimplência estava em 13,9% em 2016 e subiu para 21,4% este ano, uma diferença de 7,5 pontos porcentuais .

Perspectiva

Depois do boom da oferta de crédito ao consumidor com recursos livres, o ritmo das concessões está desacelerando. No acumulado em 12 meses até janeiro de 2025, a aprovação de novos empréstimos avançava 15,2%, mas em janeiro deste ano, cresceu 9,1% na mesma base de comparação, segundo dados do BC.

“As instituições financeiras estão desacelerando o ritmo de concessão, principalmente nas modalidades de juros mais baratos”, observa Camila.

Isso significa que o brasileiro está se endividando nas linhas de financiamento mais caras, como o crédito rotativo do cartão e o cheque especial, por exemplo. Por isso, a perspectiva é de que tão cedo não ocorra queda na inadimplência, prevê a economista.

Em março, 80,4% das famílias tinham dívidas em atraso, segundo pesquisa da Confederação Nacional de Bens, Serviços e Turismo (CNC). Fabio Bentes, economista-chefe da entidade, diz que essa marca recorde já seria preocupante por conta dos juros elevados.

No entanto, o economista acrescenta outro fator recente que agrava esse cenário e pode turbinar a inadimplência: a alta da inflação, puxada pelo combustível em razão da guerra no Oriente Médio.

O último Boletim Focus do BC mostra que a inflação esperada pelo mercado para este ano é de 4,7%. Com isso, a projeção para o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), a medida oficial de inflação, voltou a ficar acima do teto da meta de 4,5%.

Se a perspectiva de alta da inflação se confirmar nos próximos meses, o BC deve reduzir o ritmo de corte nos juros. Bentes diz que, antes da guerra, tudo levava a crer que haveria uma trajetória de declínio da inadimplência ao longo de 2026 por conta da queda da taxa básica de juros.

“O que a gente não esperava é que o choque promovido pela guerra no Oriente Médio e, consequentemente, sobre o petróleo e a inflação aqui no Brasil, fosse se dar poucos meses depois como se deu.” Por isso, diz o economista da CNC, nada garante que essa tendência de arrefecimento da inadimplência se confirme daqui pra frente.

Desenrola 2

O governo está prestes a iniciar um novo programa de renegociação de dívidas, batizado informalmente de Desenrola 2, para reduzir a inadimplência.

Economistas acreditam que o efeito do novo programa será efêmero, como ocorreu no Desenrola 1, em 2023, se não for atacada a raiz do problema da inadimplência elevada, que é o juro alto.

“O Desenrola 1 favoreceu os bancos”, diz Rabi. Como cada inadimplente tem, em média, quatro dívidas, as primeiras pendências renegociadas no Desenrola 1 foram com o sistema financeiro.

Isso porque o inadimplente tenta recuperar primeiro o crédito bancário, como o cartão de crédito e o cheque especial, por exemplo, para ter margem de manobra, a fim de pagar outras dívidas, como as contas de telefonia, de varejo, por exemplo, nas quais as penalidades por causa do calote são menores. “Se uma pessoa não paga o banco, ela perde o cheque especial, o cartão de crédito e o transtorno é maior.”

O Desenrola 1, segundo Rabi, não teve fôlego muito grande para diminuir a inadimplência de forma geral. O programa reduziu o calote junto aos bancos. Passados alguns meses, a inadimplência voltou a subir. Isso porque o ponto central não foi atacado: a redução da taxa básica de juros.

“Desenrola funcionou como uma limpeza pontual de carteira, sem alterar os determinantes estruturais do endividamento, como o nível de juros, o comprometimento de renda, o acesso ao crédito rotativo de alto custo”, escreveu o economista-chefe da MB Associados, Sergio Vale, no último relatório da consultoria sobre a conjuntura.

Um estudo realizado por Vale mostra que o programa de renegociação de dívidas “produziu uma redução estatisticamente significativa e economicamente relevante na inadimplência das famílias de baixa renda, da ordem de 2 a 3,5 pontos porcentuais nas linhas de crédito sem garantia”.

Segundo o economista da MB, o efeito na redução da inadimplência foi temporário e acabou 18 meses após o lançamento do programa. “A inadimplência retornou, em muitos casos, superando os níveis pré-programa.”

Se seguir os moldes do Desenrola 1, o novo programa do governo para renegociação de dívidas deve aliviar a situação da inadimplência no curtíssimo prazo, diz Bentes da CNC. Mas não irá atacar, na sua opinião, o ponto central que não é o desequilíbrio no orçamento das famílias, mas sim o desequilíbrio no orçamento do governo. “A taxa de juros está lá em cima porque o governo ainda não conseguiu convencer os agentes sobre a sustentabilidade das contas públicas.”

 

Estadão

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