Quem passou pelas imediações do Barradão no início da tarde de hoje percebeu um burburinho diferente. Não havia bola rolando, os portões estavam fechados, mas o torcedor do Vitória jogava sintonizado nas bolinhas do sorteio da CBF, no Rio de Janeiro. A Copa do Brasil, essa competição que teima em testar os limites cardíacos de qualquer mortal, desenhou o destino das oitavas de final. E quis o destino que o Rubro-Negro baiano cruzasse o caminho de outro gigante de mesma cor: o Athletico-PR.
Para quem olha de fora, pode parecer apenas mais um emparelhamento burocrático do calendário. Para o torcedor do Leão, é a continuação de uma epopeia escrita com suor, descrença dos críticos e uma alma gigante.
O peso de quem já derrubou um gigante
Não faz muito tempo que a torcida rubro-negra viveu uma daquelas noites que se tornam lendas passadas de pai para filho. Deixar o estrelado Flamengo pelo caminho não foi apenas garantir uma vaga; foi um resgate de identidade. Foi a prova de que o dinheiro e o favoritismo no papel se curvam diante da mística de um elenco que joga com o coração na ponta da chuteira. O Vitória entrou naquela eliminatória como o desafiante e saiu dela respeitado, carregando o orgulho ferido de uma torcida que sabe o valor de cada palmo de chão conquistado.
Agora, o cenário muda, mas a intensidade é a mesma. O Athletico-PR, o “Furacão” de Curitiba, é um adversário cascudo, copeiro e habituado às grandes noites de mata-mata. A boa notícia trazida pelo vento da sorte de hoje é que o caldeirão baiano decidirá a parada: o jogo de ida será na Arena da Baixada, e a grande decisão da vaga acontecerá em Salvador, com o Barradão transformado em um inferno vermelho e preto no início de agosto.
“A gente já provou contra o Flamengo que camisa não ganha jogo sozinha. Respeitamos o Athletico, mas quem passa pelo que a gente passou não tem medo de furacão nenhum”, desabafou Seu Antônio, torcedor que acompanha o clube há mais de quarenta anos, enquanto tomava seu café logo após o anúncio dos confrontos.
O futebol que pulsa na pele
Essa é a beleza da Copa do Brasil humanizada. Por trás do sorteio frio e das cotas milionárias de premiação, estão as famílias que vão planejar o orçamento de agosto para garantir o ingresso, os amigos que vão se espremer nos bares da cidade e os jogadores que, ao entrarem em campo, carregam nas costas as esperanças de um estado inteiro que quer ver o Nordeste no topo.
O Vitória não entra nas oitavas de final apenas para cumprir tabela ou se dar por satisfeito pela campanha até aqui. Entra com a casca de quem eliminou o favorito ao título e com o apetite de quem sabe que, quando a torcida baiana empurra, o impossível passa a ser apenas um detalhe cronometrado em 180 minutos. Que venha o Furacão, porque o Leão já está rugindo.

