Experiências como abandono, abuso e rupturas emocionais podem afetar o desenvolvimento cognitivo de crianças e adolescentes
Agitação, dificuldade para controlar as emoções e desatenção em sala de aula. Muitos podem associar esses sinais a algum tipo de transtorno, mas isso nem sempre é o caso. Os sintomas também podem ser percebidos em crianças e adolescentes que passaram por experiências traumáticas, como abuso, abandono ou rupturas emocionais.
Diante desse cenário, a psicóloga Aline Santana explica que o trauma psicológico é um acontecimento de grande intensidade, capaz de ameaçar o bem-estar de uma pessoa e provocar consequências na vida emocional e mental. A profissional destaca que crianças e adolescentes também estão sujeitos a esses impactos e explica de que maneira os traumas podem interferir no desenvolvimento cognitivo.
“É como se o desenvolvimento cerebral acontecesse com a construção de um prédio de três andares. O primeiro é o andar da sobrevivência, o segundo é o andar emocional, e o terceiro é o cognitivo, do raciocínio, do planejamento e afins. O trauma mantém o cérebro sempre em alerta, o que faz com que ele esteja sempre trabalhando para se proteger do perigo. Isso quer dizer que ele acaba ficando preso no primeiro andar, dificultando o desenvolvimento dos outros e impactando diversas áreas da vida, inclusive na dinâmica escolar”, afirmou a psicóloga.
Aline também alerta que a agitação e a desatenção podem ser confundidas com sintomas de transtornos, principalmente entre crianças que vivenciaram situações de abandono ou rupturas e precisaram permanecer em lares de acolhimento. Nesses casos, antes de qualquer diagnóstico, é fundamental avaliar o ambiente em que a criança está inserida.
“Uma criança que vem de uma vivência traumática primeiro precisa se sentir segura no ambiente para que seu cérebro possa sair do modo de sobrevivência e seguir no aprendizado. É importante que, antes de uma investigação diagnóstica, a segurança e a modificação do ambiente sejam priorizadas”, alerta.
Vínculo afetivo
Ainda entre crianças e adolescentes institucionalizados, os sintomas podem continuar mesmo após uma adoção. Por isso, é importante que o vínculo seja construído de maneira saudável e sem cobranças.
“O vínculo seguro organiza o funcionamento emocional da criança e, dessa forma, o cérebro deixa de investir em hipervigilância e investe em exploração. Ações do cotidiano são ótimas formas de fortalecer o vínculo afetivo. Ouvir, acolher, brincar e ajudar nos conflitos também ajudam a criança a entender que depender do outro não é tão ruim e perigoso, o que a deixa mais segura para outras ações”, explicou Aline.
Diferença entre trauma e transtorno
Para diferenciar transtornos de aprendizagem ou de neurodesenvolvimento, como o TDAH, de uma resposta adaptativa ao trauma, é necessário contar com o auxílio da psicologia. Segundo Aline, o profissional atua na compreensão das consequências das experiências traumáticas, contribuindo para que a escola possa adaptar atividades e dar continuidade às intervenções de segurança realizadas em terapia com a criança e a família.
Nesse processo, escola, família e psicologia precisam atuar em conjunto para compreender se o comportamento apresentado pela criança é uma resposta a uma experiência traumática ou se, de fato, está relacionado a um transtorno que necessita de investigação, diagnóstico e tratamento adequado.
Foto: Divulgação

