quinta-feira | 12.03 | 8:31 PM

domingo | 31.08 | 09:06 AM

Peixe-leão venenoso e coral exótico acendem alerta para riscos na Bahia

Segundo a bióloga Stella Furlan, supervisora de Meio Ambiente de Maraú, o aparecimento do peixe representa uma ameaça ampla

0Comentário(s)

A descoberta de um peixe-leão com 18 espinhos venenosos na Península de Maraú, no baixo sul da Bahia, somada à remoção recente de mais de cinco toneladas de corais exóticos na Baía de Todos-os-Santos, acendeu um sinal de alerta entre ambientalistas e autoridades públicas sobre os riscos silenciosos que espécies invasoras representam à biodiversidade marinha do estado. A chegada desses organismos — sem predadores naturais e com alto poder de adaptação — preocupa especialmente em áreas como a Baía de Todos-os-Santos, que abriga ecossistemas sensíveis, comunidades pesqueiras tradicionais e uma das maiores concentrações de riqueza biológica do litoral brasileiro.

O peixe-leão (Pterois volitans), identificado por pescadores em Taipu de Dentro no último fim de semana, é uma espécie originária do Indo-Pacífico que tem se espalhado por diversas regiões do Atlântico com grande impacto ambiental. Com sua aparência exótica e 18 espinhos com veneno neurotóxico, o animal pode causar acidentes graves em humanos, além de ser uma ameaça voraz à fauna marinha nativa. Cada exemplar é capaz de liberar até 30 mil ovos a cada ciclo reprodutivo e consumir até 20 peixes em menos de meia hora, desequilibrando cadeias alimentares inteiras.

Segundo a bióloga Stella Furlan, supervisora de Meio Ambiente de Maraú, o aparecimento do peixe representa uma ameaça ampla. “É uma ameaça silenciosa aos nossos ecossistemas marinhos e a todos nós que vivemos do mar. Se ele se instalar, todos nós iremos perder. Animais, pescadores, mergulhadores, moradores e todos que dependem do mar de alguma forma.”

A prefeitura local, com apoio da Secretaria de Meio Ambiente (Sema) e do Instituto do Meio Ambiente e Recursos Hídricos (Inema), iniciou uma força-tarefa para orientar a população sobre como agir diante de novos avistamentos. A recomendação é capturá-lo com segurança — usando luvas e proteção —, não devolvê-lo ao mar e notificar imediatamente os órgãos ambientais. Oficinas e treinamentos estão sendo planejados para as próximas semanas com o objetivo de evitar a proliferação da espécie.

Enquanto isso, na Baía de Todos-os-Santos, equipes técnicas vêm enfrentando outro desafio ambiental: a colonização acelerada de um coral exótico identificado como Chromonephthea braziliensis, que tem sufocado organismos nativos e modificado a estrutura física dos recifes. Apenas na última semana, mais de cinco toneladas desses corais foram removidas de forma manual na região da Ilha de Itaparica, em uma operação conjunta com mergulhadores e pesquisadores da Universidade Federal da Bahia, Sema, Inema, ICMBio e Marinha.

A bióloga Tatiane Aguiar, que atua na linha de frente da ação, explica que o impacto do coral vai além da competição por espaço. “Esses organismos crescem por cima de outros, asfixiam os corais nativos e afetam diretamente os peixes que dependem dessas formações para abrigo e alimentação. Isso compromete todo o ciclo natural do recife.”

A Tribuna da Bahia já havia acompanhado, meses atrás, o início da operação de remoção na Ilha de Itaparica. Naquela ocasião, especialistas alertaram que o coral invasor poderia provocar o desaparecimento de peixes, prejudicar a pesca artesanal e alterar a paisagem marinha. A reportagem destacou que, por ser uma espécie exótica, o

Chromonephthea não encontra resistência natural e tende a se expandir rapidamente sobre o ecossistema costeiro. Foi durante essa cobertura anterior que o diretor de Políticas e Planejamento Ambiental da Sema, Tiago Porto, afirmou: “Cada espécie invasora exige uma resposta específica. Em poucos dias conseguimos remover toneladas do coral, mas o desafio continua. Proteger nossos ecossistemas é uma responsabilidade compartilhada.”

A Baía de Todos-os-Santos é a segunda maior baía do Brasil em volume de água e uma das regiões marinhas mais biodiversas do Atlântico Sul. Suas águas abrigam manguezais, recifes, bancos de algas, tartarugas, golfinhos e centenas de espécies de peixes. Além da importância ecológica, a baía tem peso histórico, cultural e econômico — sendo um polo de turismo náutico e sustentação para comunidades pesqueiras tradicionais. Qualquer alteração significativa em seu equilíbrio pode afetar cadeias produtivas inteiras e comprometer a qualidade ambiental de toda a região.

Autoridades estaduais desenvolvem atualmente um protocolo de resposta rápida para conter a propagação dessas ameaças. A medida prevê capacitações em comunidades litorâneas, padronização de condutas para captura segura, campanhas educativas e um programa de monitoramento permanente. O objetivo é fortalecer a vigilância ambiental e garantir que o avanço dessas espécies seja contido antes que seus impactos se tornem irreversíveis.

A introdução de espécies invasoras em ambientes costeiros está frequentemente associada ao trânsito internacional de embarcações — seja pelo despejo de água de lastro ou pela fixação de organismos em cascos de navios e plataformas marítimas. No caso baiano, a extensão do litoral e a riqueza dos habitats tornam o estado particularmente vulnerável a esse tipo de contaminação biológica.

Sem alarde, mas com urgência, a mobilização em curso nas águas da Bahia revela que a preservação da biodiversidade marinha depende de ação integrada, baseada em ciência, participação comunitária e políticas públicas consistentes. Manter a vitalidade dos recifes, dos estuários e das espécies que ali habitam é garantir também o sustento de milhares de famílias e o futuro de um dos maiores patrimônios naturais do país.

 

Fonte: Tribuna da Bahia

Publicidade

Foto: Divulgação/Reprodução

Publicidade
Publicidade