Desde o desabamento de parte do teto da Igreja de São Francisco de Assis, no Pelourinho, em fevereiro de 2025, tragédia que deixou uma jovem turista morta e cinco pessoas feridas, o patrimônio religioso de Salvador passou a ser analisado sob uma nova lente: a da urgência.
Além do impacto humano, o episódio revelou também a dimensão financeira e estrutural do problema. Somente para as primeiras ações emergenciais no templo, já foram destinados cerca de R$ 2,4 milhões, enquanto outros R$ 20 milhões foram assegurados por meio de programas federais. Ainda assim, a estimativa total para a recuperação completa da igreja pode chegar a R$ 90 milhões, evidenciando a complexidade e o alto custo da preservação desse tipo de patrimônio histórico.
O episódio desencadeou uma série de vistorias técnicas que resultaram na interdição total ou parcial de ao menos 12 templos históricos, parte de um universo que soma quase 600 igrejas na capital baiana.
Passado um ano e dois meses da tragédia, o cenário ainda é de preocupação. Igrejas seguem fechadas, obras avançam lentamente e não há, na maioria dos casos, previsão concreta de reabertura. O que antes era tratado como desgaste natural do tempo passou a ser entendido como um problema estrutural mais amplo, envolvendo falhas de manutenção preventiva, entraves burocráticos e limitações orçamentárias.
Segundo levantamento baseado em dados da Defesa Civil de Salvador (Codesal), integram a lista de interdições totais espaços emblemáticos como a Paróquia Nossa Senhora da Boa Viagem; a Igreja Nossa Senhora da Ajuda; a Igreja e Convento dos Perdões; a Igreja de São Bento da Bahia; a Igreja da Ordem Terceira do Carmo; a Igreja Nossa Senhora da Conceição da Lapa; e a Capela Sagrada Família. Todas seguem com acesso completamente bloqueado.
Também permanecem fechadas a Igreja de São Miguel, a Igreja dos Aflitos e a Igreja dos Quinze Mistérios, que chegaram a passar por novas vistorias, mas tiveram a interdição mantida após avaliação técnica. Já o Convento Santa Clara do Desterro aparece na relação como parcialmente interditado, com restrições de circulação em áreas específicas.
No caso da própria Igreja de São Francisco, considerada um dos maiores símbolos do barroco brasileiro, a situação é de obra em andamento, com escoramento estrutural, retirada de peças artísticas e intervenções no telhado e no madeiramento. Ainda assim, não há previsão oficial para reabertura ao público.
À época do acidente, o impacto foi imediato e gerou forte comoção. Em nota, o IPHAN afirmou que “a prioridade naquele momento era garantir a segurança estrutural do imóvel e preservar o acervo histórico-artístico”, reconhecendo que seriam necessárias intervenções profundas. Já o IPAC destacou que “o episódio acende um alerta para a necessidade de intensificar as ações de monitoramento e conservação preventiva em todo o conjunto de bens tombados”.
Na ocasião, a Arquidiocese de Salvador também se manifestou, ressaltando que “as igrejas históricas exigem manutenção contínua e especializada, o que demanda recursos elevados e articulação entre diferentes esferas”. A instituição ainda reforçou que acompanharia de perto os desdobramentos das vistorias realizadas nos demais templos.
De acordo com técnicos que acompanham o tema, o desabamento evidenciou uma prática recorrente: a manutenção reativa. Ou seja, intervenções que ocorrem apenas quando o problema já se tornou visível ou crítico.
Segundo o especialistas em patrimônio Igor Ávila, muitas dessas igrejas apresentam sinais clássicos de desgaste, como infiltrações, ataque de cupins, comprometimento de estruturas de madeira e falhas em coberturas. “São edificações seculares, que exigem acompanhamento constante. Sem isso, o risco se acumula ao longo do tempo”, apontam.
A própria Igreja de São Francisco já apresentava indícios de problemas estruturais antes do colapso, incluindo deformações no teto e infiltrações. Um pedido de vistoria havia sido registrado dias antes do desabamento, um dado que reforça o alerta sobre a necessidade de respostas mais ágeis.
Ainda em fevereiro de 2025, um técnico da Defesa Civil chegou a afirmar, durante as primeiras inspeções, que “há outras igrejas na cidade que precisam de avaliação detalhada, porque compartilham características construtivas semelhantes”, indicando que o problema poderia ir além de um caso isolado.
Patrimônio valioso e manutenção cara, mas necessária
Salvador concentra um dos maiores acervos de arte sacra da América Latina. Igrejas erguidas entre os séculos XVII e XVIII guardam talhas douradas, pinturas, azulejos portugueses e estruturas complexas de madeira.
Esse conjunto, embora de valor inestimável, exige técnicas específicas de conservação e equipes altamente qualificadas. O custo das obras, por sua vez, é elevado e depende, em grande parte, de recursos públicos, especialmente do governo federal.
No caso da Igreja de São Francisco, já foram destinados cerca de R$ 2,4 milhões em ações emergenciais, enquanto outros R$ 20 milhões foram previstos via Programa de Aceleração do Crescimento (PAC). A estimativa total de restauração, no entanto, pode chegar a R$ 90 milhões.
Outro entrave apontado por especialistas e gestores públicos é a divisão de responsabilidades. A conservação das igrejas envolve diferentes atores: ordens religiosas, Arquidiocese, IPHAN, IPAC e governos municipal e estadual.
Na prática, essa sobreposição pode gerar lentidão na tomada de decisões e dificuldade na execução de ações preventivas. “Não é raro que uma intervenção dependa de múltiplas autorizações, o que atrasa respostas em situações que exigem rapidez”, avaliam.
Impacto na fé e no turismo preocupa população e comerciantes
Além do valor histórico, as interdições afetam diretamente a vida religiosa e o turismo. Muitas dessas igrejas são locais de devoção cotidiana, missas tradicionais e visitação constante por turistas nacionais e estrangeiros.
Frequentadores relatam frustração com o fechamento prolongado. O aposentado José Carlos Santana, de 68 anos, devoto que frequentava missas no Centro Histórico há décadas, lembra do impacto da tragédia e do vazio deixado pelo fechamento dos templos: “Quando a gente viu aquela cena, foi um choque muito grande. Depois disso, começaram a fechar outras igrejas, e hoje a gente sente falta desse convívio. São lugares que fazem parte da nossa vida”.
Ele também reforça a preocupação com o estado das construções: “A gente sempre percebeu infiltração, madeira antiga… mas nunca imaginou que poderia acontecer algo assim. Agora fica esse medo e essa saudade ao mesmo tempo”.
No setor turístico, o impacto também é perceptível. Igrejas como a de São Francisco figuram entre os principais cartões-postais de Salvador, e sua ausência no roteiro compromete a experiência de visitantes.
Até o momento, a maior parte dos templos interditados ainda não iniciou obras estruturais completas, permanecendo em fase de diagnóstico, captação de recursos ou elaboração de projetos. Algumas intervenções emergenciais foram realizadas, mas sem avanço significativo para reabertura.
Órgãos como o IPHAN e o IPAC afirmam que estão atuando em conjunto com a Arquidiocese para viabilizar as restaurações, priorizando casos considerados mais críticos. Em declarações dadas após o acidente, representantes dos órgãos chegaram a destacar que “o volume de bens tombados em Salvador exige planejamento contínuo e recursos permanentes, não apenas ações emergenciais”.
Alerta -:Mais de um ano após o desabamento que chocou o país, o episódio segue como marco de um problema maior: a fragilidade estrutural de parte do patrimônio histórico de Salvador.
Fonte: Tribuna da Bahia
Foto: Romildo de Jesus/Tribuna da Bahia
