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Autismo adulto amplia debate sobre acesso à saúde e inclusão

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A chegada à vida adulta costuma ser associada à busca por autonomia, trabalho e construção de projetos próprios. Para pessoas com Transtorno do Espectro Autista (TEA), no entanto, essa etapa também pode representar uma nova fase de incertezas sobre acesso a tratamento, acompanhamento especializado e suporte social. O debate, que durante muitos anos esteve concentrado na infância, começa a se ampliar para uma pergunta cada vez mais urgente: que rede existe para pessoas autistas quando chegam à vida adulta?

Em entrevista à Tribuna da Bahia, a advogada Lorena Raquelo, especialista em Direito da Saúde, explicou que essa fase ainda é uma das principais lacunas na estrutura de cuidado voltada à população autista. Segundo ela, a dificuldade não está apenas no diagnóstico ou no início do tratamento, mas na continuidade do acompanhamento ao longo da vida, especialmente quando o suporte familiar começa a se tornar insuficiente.

“A invisibilidade do autista adulto ocorre porque a maioria das políticas, serviços e legislação ainda está voltada para a infância. Na prática, muitos adultos autistas enfrentam dificuldades para acessar tratamentos, inclusão no mercado de trabalho e suporte contínuo. O autismo não desaparece com a idade, por isso é fundamental garantir políticas públicas que promovam autonomia, dignidade e qualidade de vida ao longo de toda a vida”, afirma.

Segundo o Censo 2022 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o Brasil tem 2,4 milhões de pessoas diagnosticadas com TEA. Na Bahia, conforme dados do levantamento citados pela especialista, são 144.928 pessoas com diagnóstico, sendo 28.915 em Salvador. Os números, no entanto, consideram pessoas diagnosticadas por profissionais de saúde, o que mantém em discussão o impacto do subdiagnóstico, especialmente entre adultos que passaram a vida sem identificação formal.

Para a advogada Lorena Raquelo, a transição para a maioridade expõe uma fragilidade do sistema. Muitas pessoas autistas que tiveram acesso a algum tipo de acompanhamento na infância passam a enfrentar uma rede mais limitada quando chegam à vida adulta. A mudança de fase não elimina as necessidades de cuidado, mas pode reduzir a oferta de serviços, dificultar a manutenção de terapias e ampliar a dependência das famílias.

Entre os obstáculos mais frequentes, a advogada cita a escassez de profissionais capacitados para atender adultos autistas, as limitações impostas por planos de saúde, a dificuldade de acesso a medicamentos de uso contínuo e a ausência de programas públicos específicos para essa fase da vida.

“Também há escassez de profissionais capacitados para atender adultos, negativas ou limitações impostas pelos planos de saúde, dificuldade de acesso a medicamentos de uso contínuo e falta de políticas públicas específicas para essa fase da vida. O resultado é uma

assistência fragmentada e insuficiente justamente quando muitos precisam de acompanhamento permanente para garantir autonomia, qualidade de vida e inclusão social”, explica.

 

 

Acesso à saúde

No Direito da Saúde, parte das demandas envolvendo pessoas com TEA chega à Justiça após negativas de cobertura por planos de saúde ou dificuldade de acesso pelo Sistema Único de Saúde (SUS). As ações costumam envolver terapias multidisciplinares, consultas especializadas, medicamentos de uso contínuo e tratamentos prescritos por profissionais de saúde.

“As negativas geralmente se baseiam no alto custo do tratamento, na ausência do medicamento nos protocolos do SUS ou da ANS [Agência Nacional de Saúde Suplementar] e em alegações de falta de cobertura contratual. A judicialização se torna necessária quando há prescrição médica e necessidade comprovada, mas o paciente tem seu direito negado. Nesses casos, a Justiça é fundamental para garantir o acesso ao tratamento e preservar a saúde e a dignidade da pessoa”, afirma a especialista em Direito da Saúde.

Para Lorena, o caminho judicial é legítimo, mas não deveria ser a principal forma de garantir cuidado. A recorrência dessas ações, segundo ela, revela a dificuldade de transformar direitos já reconhecidos em acesso regular, especialmente quando há medicamentos de alto custo, como o canabidiol, ou tratamentos contínuos indicados para melhora da qualidade de vida.

“Como advogada, entendo que a principal lacuna hoje é a ausência de políticas públicas voltadas ao ciclo completo de vida do autista. Precisamos avançar para além do diagnóstico e do tratamento, criando programas de moradia assistida, inclusão no mercado de trabalho, centros de convivência e redes permanentes de apoio”, defende.

“A grande preocupação das famílias é o futuro: quem cuidará desse adulto quando os pais envelhecerem ou não puderem mais prestar assistência? Garantir dignidade ao autista adulto significa assegurar autonomia, proteção e suporte contínuo ao longo de toda a vida”, completa Lorena Raquelo.

 

Fonte: Tribuna da Bahia

Foto: Divulgação/Reprodução

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