A disputa comercial entre Brasil e Estados Unidos ganhou um novo capítulo no mercado de açúcar. O governo de Donald Trump sinalizou que poderá reter e redistribuir uma parcela de quase 56 mil toneladas da cota de açúcar destinada ao Brasil caso o país não apresente aos Estados Unidos “propostas comerciais satisfatórias”.
A declaração foi feita pelo subsecretário de Agricultura dos Estados Unidos, Stephen Vaden, durante um simpósio da American Sugar Alliance, realizado no Colorado na semana passada.
A ameaça ocorre em um momento de forte pressão da indústria açucareira americana por uma política comercial mais restritiva. Produtores de cana e beterraba defendem tanto a revisão das tarifas aplicadas ao açúcar importado acima das cotas quanto medidas para reduzir a entrada de produto estrangeiro no mercado americano.
Brasil pode perder parte da cota
O USTR (Representante Comercial dos Estados Unidos) anunciou, em 23 de julho de 2026, as cotas tarifárias (TRQs) para importações de açúcar no ano fiscal de 2027, que vai de 1º de outubro de 2026 a 30 de setembro de 2027.
Por esse mecanismo, determinados países têm direito a exportar volumes específicos de açúcar para o mercado americano pagando uma tarifa reduzida. Neste contexto a cota brasileira tradicional gira em torno de 156 mil toneladas.
Para o ano fiscal de 2027 a cota dos Estados Unidos será, de aproximadamente 1,117 milhão de toneladas, distribuídas entre 39 países. Mas por enquanto, apenas 100 mil toneladas foram distribuídas ao País e cerca de 56 mil toneladas ainda não foram alocadas para nenhum fornecedor, ou seja, aproximadamente 36% da cota brasileira.
Caso a exigência americana não seja atendida, Washington poderá redistribuir o montante para outros fornecedores.
Embora o volume seja pequeno quando comparado ao tamanho da produção e das exportações brasileiras, ele tem um valor comercial muito maior devido à diferença de tarifas aplicadas dentro e fora da cota.
Por que a cota é tão importante?
O Brasil deve exportar aproximadamente 35,7 milhões de toneladas de açúcar na safra 2025/26, segundo estimativa do USDA (Departamento de Agricultura dos Estados Unidos, sigla em inglês).
As 156 mil toneladas destinadas aos Estados Unidos representam, portanto, menos de 0,5% das exportações brasileiras.
Em termos de volume, o mercado americano não é capaz de determinar o destino da produção brasileira.
O problema está na condição de acesso.
O açúcar exportado dentro da cota paga uma tarifa muito inferior àquela cobrada quando o produto entra acima do limite estabelecido pelos Estados Unidos.
Para o açúcar bruto, a tarifa dentro da cota é de aproximadamente 0,66 centavo de dólar por libra. Fora da cota, a tarifa chega a aproximadamente 15,36 centavos de dólar por libra.
Na conversão para toneladas, isso equivale a cerca de US$ 14,60 por tonelada dentro da cota contra US$ 338,60 fora dela, antes da incidência de eventuais tarifas adicionais.
A disputa vai além da cota brasileira
A pressão sobre o Brasil acontece paralelamente a uma ofensiva dos produtores americanos para aumentar a proteção do mercado doméstico.
O tema ganhou força no 41º Simpósio Internacional de Açúcar, realizado na última semana no Colorado, representantes da American Sugar Alliance defenderam a atualização da chamada tarifa tier 2, aplicada ao açúcar importado acima das cotas.
A tarifa foi estabelecida em 2000 e, segundo representantes do setor e do USDA, teria perdido capacidade de desestimular as importações.
A responsável pelo programa de açúcar do USDA, Carlann Unger, afirmou durante o evento que a tarifa atualmente não seria mais suficientemente elevada para funcionar como uma barreira efetiva à entrada do açúcar estrangeiro.
O argumento ganha força em um cenário de estoques elevados nos Estados Unidos. Segundo Unger, o país iniciou o ano fiscal de 2026 com os maiores estoques de açúcar já registrados.
Para os produtores americanos, o aumento das importações fora da cota contribuiu para pressionar os preços domésticos.
Um estudo do Centro de Políticas de Risco Agrícola da Universidade Estadual de Dakota do Norte (NDSU) estimou que o aumento das importações de açúcar acima das cotas provocou mais de US$ 3 bilhões em perdas aos produtores americanos nas duas últimas safras.
O economista Shawn Arita, um dos autores do estudo, afirmou que a pesquisa encontrou um efeito significativo das importações sobre os preços domésticos do açúcar.
Fonte: CNN Brasil
Foto: Açúcar branco granulado. REUTERS/Emmanuel Foudrot/Ilustração

