Ciência e Saúde

Apostas online acendem alerta para saúde mental e risco de suicídio entre jogadores

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Publicado em 10/09/2026 às 10:30

Especialistas defendem abordagem aberta sobre ideação suicida e destacam importância do apoio de familiares e de acompanhamento profissional

O crescimento das apostas virtuais, conhecidas como bets, tem levado profissionais de saúde mental a alertar para os impactos do jogo problemático. Entre pacientes que relatam dependência, o sofrimento psicológico pode vir acompanhado de ansiedade, depressão, endividamento, isolamento social e, nos casos mais graves, pensamentos e comportamentos suicidas.

No Dia Mundial de Prevenção ao Suicídio, especialistas ouvidos pela Agência Brasil reforçam a importância de abordar o tema de forma direta durante os tratamentos. Para eles, familiares e amigos também devem estar atentos a mudanças de comportamento e sinais de sofrimento.

Entre os principais alertas estão desesperança, sensação de estar sem saída, afastamento de pessoas próximas, aumento do consumo de álcool e mudanças significativas de comportamento. Falas relacionadas à morte ou à falta de vontade de continuar vivendo também devem ser levadas a sério e podem indicar a necessidade de buscar ajuda profissional.

“A ideação suicida deve ser tratada de forma mais aberta tanto no consultório quanto nos grupos terapêuticos. Com manejo adequado, podemos reduzir o risco e tentar ajudar os pacientes”, afirma a psiquiatra Kátia Branco, supervisora do Grupo Pro-Amiti, do Hospital das Clínicas de São Paulo, que atua no tratamento e estudo dos transtornos do controle dos impulsos.

Segundo a especialista, pessoas que procuram atendimento por ludopatia — condição caracterizada pela dificuldade de controlar o impulso de jogar — muitas vezes já chegam aos serviços de saúde com sintomas de depressão e ansiedade.

“Estão extremamente ansiosas em virtude dos prejuízos que têm por causa dos jogos. Há quem tenha pensamentos de morte e, no caso dos mais graves, já com ideação suicida em virtude dos prejuízos financeiros que têm”, explica.

 

O ciclo da recompensa

O neurocirurgião Orlando Maia, que atua no Rio de Janeiro, explica que a dependência em apostas também está relacionada a mecanismos do sistema de recompensa do cérebro.

Segundo ele, a expectativa de ganhar pode estimular a liberação de dopamina, neurotransmissor associado à sensação de recompensa. Esse mecanismo pode influenciar regiões cerebrais envolvidas no controle das decisões e do comportamento.

“O sistema de recompensa pode começar a falar mais alto do que os mecanismos de controle das decisões”, afirma o médico, que trabalha no Hospital Quali Ipanema.

Para Maia, a frustração provocada pelas perdas sucessivas pode contribuir para o agravamento de quadros depressivos e aumentar o sofrimento psicológico. Por isso, ele considera importante que as ações de prevenção à saúde mental, especialmente durante o Setembro Amarelo, também chamem atenção para o jogo problemático.

O tratamento, segundo o especialista, exige uma abordagem ampla e pode envolver diferentes áreas, como medicina, psicologia e atividade física.

“Os mecanismos de tratamento desse ato de estímulo contínuo das apostas e das frustrações envolvem um processo”, explica. Segundo ele, a recuperação passa por uma série de estratégias associadas para promover a melhora progressiva do quadro.

 

Quando o jogo passa a fazer parte da rotina

Um dos desafios apontados pelos especialistas é fazer com que a própria pessoa reconheça que desenvolveu um comportamento problemático.

Orlando Maia afirma que, em muitos casos, o indivíduo passa a considerar a aposta uma atividade comum do cotidiano e não percebe a dimensão do problema. Nesses momentos, o apoio de familiares e amigos pode ser fundamental.

“Precisam de pessoas da família ou de amigos que possam ajudar”, afirma.

Além do sofrimento emocional, familiares também podem acompanhar o avanço das dívidas e outros impactos provocados pelo jogo. O endividamento pode se somar a sintomas de depressão e ansiedade, agravando o quadro.

“São transtornos ligados à saúde mental que aumentam muito em consequência disso. É algo que realmente nos preocupa”, afirma Kátia Branco.

 

Pedido de socorro

A psicóloga Claudia Feres, que atua em um Centro de Atenção Psicossocial (Caps) no Distrito Federal, recomenda que pessoas que enfrentam dependência em apostas e seus familiares procurem ajuda profissional o quanto antes.

“Eu trabalho em Caps. Chegam para nós pessoas que tiveram pensamentos e fizeram, por exemplo, tentativa de autoextermínio. É um pedido de socorro desesperado, como se falasse que precisa se ausentar da vida naquele momento”, relata.

Para a psicóloga, uma tentativa de suicídio ou uma fala sobre a morte nem sempre significa que a pessoa deseja morrer. Pode representar, naquele momento, uma tentativa de interromper uma situação de sofrimento que parece insuportável.

“Não significa que quer morrer, mas está perdida naquele momento. A gente faz o acolhimento e pede para trazer a família junto. Pensar em estratégias que façam sentido para todos”, explica.

Claudia também defende que o problema seja tratado para além do comportamento individual.

“A solução tem que ser no âmbito coletivo também”, afirma.

 

Como o comportamento de risco se desenvolve

A psiquiatra Giovanna Quinet, que atua no Rio de Janeiro, ressalta que não é possível afirmar que apostar necessariamente causará depressão ou que toda pessoa que aposta desenvolverá pensamentos suicidas.

“O problema está principalmente quando o jogo deixa de ser uma atividade eventual e passa a ocupar espaço central na vida da pessoa, com perda de controle e consequências negativas”, afirma a profissional da Clínica Revitalis.

Para ela, as apostas online apresentam uma característica que amplia o risco de uso excessivo: estão disponíveis praticamente o tempo todo, diretamente no celular.

A exposição também é reforçada pela presença das apostas em eventos esportivos, campanhas publicitárias e redes sociais. Esse ambiente pode contribuir para a normalização do comportamento e dificultar a percepção de quando uma atividade recreativa passa a se tornar problemática.

O ciclo pode começar com apostas feitas por entretenimento ou pela expectativa de obter algum ganho. Com o tempo, porém, as perdas podem levar a pessoa a aumentar os valores apostados na tentativa de recuperar o dinheiro.

“Em determinado momento, pode começar a perder mais dinheiro, aumentar as apostas na tentativa de recuperar o que perdeu e esconder da família o tamanho do problema”, explica Giovanna.

A partir daí, podem surgir dívidas, conflitos familiares, problemas no trabalho, insônia, ansiedade, culpa, vergonha e isolamento social.

“Esse estado de desesperança pode estar associado à depressão e aumentar o risco de pensamentos e comportamentos suicidas”, alerta a especialista.

Para os profissionais, o acompanhamento deve começar antes que a situação chegue a um estágio extremo.

O tratamento psiquiátrico e o uso de medicamentos podem ser necessários em determinados casos. A psiquiatra também reforça que perguntar diretamente sobre pensamentos suicidas não aumenta o risco.

“Perguntar não significa induzir o suicídio. Pelo contrário, pode abrir uma oportunidade para que aquela pessoa fale sobre algo que estava vivendo em silêncio”, afirma.

Para os especialistas, a prevenção ao suicídio passa também pela identificação e pelo tratamento das situações que podem levar uma pessoa a um estado de sofrimento intenso e desesperança. Nesse contexto, o jogo problemático precisa ser encarado como uma questão de saúde, e não apenas financeira.

 

Setor defende atuação coordenada

O Instituto Brasileiro de Jogo Responsável (IBJR) considera importante ampliar o debate sobre prevenção ao jogo problemático e proteção de pessoas em situação de vulnerabilidade.

A entidade afirma que, desde o início do mercado federal regulado, em janeiro de 2025, as empresas autorizadas passaram a operar sob regras e controles específicos voltados à proteção do consumidor e ao jogo responsável.

“A entidade entende que o jogo problemático é uma questão séria e seu enfrentamento exige atuação coordenada entre poder público, reguladores, empresas, entidades e sociedade.”

Em relação à publicidade, o setor afirma que, com a regulamentação, as ações de comunicação passaram a seguir regras específicas.

 

Onde buscar ajuda

Especialistas recomendam que uma pessoa em risco de suicídio não fique sozinha e receba atendimento profissional o mais rápido possível.

Em situações de emergência, é possível acionar o Samu pelo telefone 192 ou procurar um serviço de urgência.

Quem estiver passando por sofrimento emocional e precisar conversar também pode procurar o Centro de Valorização da Vida (CVV), pelo telefone 188, com atendimento gratuito 24 horas por dia.

A Rede de Atenção Psicossocial (RAPS) do SUS também oferece serviços de atendimento em saúde mental, incluindo os Centros de Atenção Psicossocial (Caps).

 

Foto: © Marcelo Camargo/Agência Brasil/Arquivo

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