Tem gente que canta o Carnaval. E tem gente que ajudou a inventar o jeito como a Bahia canta o Carnaval. Netinho é dessas pessoas. Nascido Ernesto de Souza Andrade Júnior, em 12 de julho de 1966, em Santo Antônio de Jesus, ele chegou a Salvador ainda criança, depois de perder o pai, e foi na capital baiana que a música virou o centro da sua vida, primeiro no violão, presente da mãe aos 14 anos, depois nos palcos de bares da cidade, cantando MPB e bossa nova pra quem quisesse ouvir.
Do Bloco Beijo ao Brasil inteiro

Infográfico linha do tempo. Por Bárbara Nascimento
A virada veio do Carnaval, como costuma acontecer na Bahia. Em 1986, Netinho desfilou como simples folião do Bloco Beijo, puxado por Luiz Caldas e pela Banda Acordes Verdes, e foi ali que nasceu o encantamento pelos trios elétricos. Um ano depois, fez teste pra banda que o bloco estava formando e foi escolhido. Em 1988, já estava no circuito oficial do Carnaval de Salvador como vocalista da Banda Beijo, e o álbum “Prove Beijo” trouxe “Beijo na Boca”, música que tocou em rádio de norte a sul do país e colocou o nome da banda, e da Bahia, no mapa musical do Brasil.
Dali em diante, foi um sobe constante. Em 1989, a Banda Beijo virou a primeira banda baiana a se apresentar no “Domingão do Faustão”, segundo a biografia oficial do cantor — um feito e tanto numa época em que a TV aberta ainda era o maior palco do país. Em 1990, durante a Copa do Mundo, Netinho levou um trio elétrico pra Turim, na Itália, exportando pra fora do Brasil um dos símbolos mais genuínos do Carnaval baiano. Em 1992, o álbum “Aconteceu Axé Music” trouxe “A Vida É Festa”, que virou tema da novela “Mulheres de Areia”, da Globo, e rendeu Disco de Ouro, prova de que o som nascido nos trios de Salvador já tinha conquistado a sala de estar do brasileiro.
A voz que seguiu sozinha
Depois de cinco anos à frente da Banda Beijo, Netinho deu um passo que poucos artistas de tanto sucesso arriscam: saiu do grupo que o consagrou pra construir um nome próprio. Em 1993, lançou “Um Beijo pra Você”, com produção de Guto Graça Mello, e emplacou faixas como “Capricho dos Deuses”, “Menina” e “Total”. Os álbuns seguintes, “Nada Vai Nos Separar” (1994) e “Netinho” (1995), mantiveram o cantor no circuito das rádios e dos grandes eventos até que, em 1996, veio “Milla”, música que ultrapassou gerações e virou presença garantida em Carnaval e festa popular pelo Brasil afora.

Netinho durante show em 2008
Por que Netinho importa pra Bahia
Falar da trajetória de Netinho é falar de como o axé deixou de ser som de trio elétrico e virou trilha sonora nacional. Primeiro como voz da Banda Beijo, depois em carreira solo, ele ajudou a levar pra rádio, pra TV e pra festa de todo o Brasil um som que nasceu nas ladeiras e nos circuitos de Salvador.

Trajetória de Netinho. Por Bárbara Nascimento
As apresentações em trio elétrico — inclusive fora do país, como em Turim — carregaram junto a energia e o formato do Carnaval baiano pra outros públicos, e o sucesso de músicas como “Beijo na Boca”, “A Vida É Festa”, “Capricho dos Deuses” e “Milla” ajudou a abrir caminho pra expansão das micaretas Brasil afora, replicando em outros estados a fórmula de festa que Salvador criou.
Mais de três décadas depois de “Beijo na Boca” tocar pela primeira vez numa rádio, esse repertório continua vivo na memória afetiva de quem viveu aquele Carnaval, e de quem nem tinha nascido ainda. É esse tipo de legado que faz da trajetória de Netinho parte da própria história da música baiana.
Em 2025, reportagens noticiaram que o cantor enfrenta um diagnóstico de linfoma não Hodgkin — notícia que mobilizou fãs e colegas de profissão em todo o país.
Independentemente de como essa história encerrou hoje, uma coisa já está selada: Netinho é parte do alicerce sobre o qual a música baiana se tornou fenômeno nacional, e seu nome segue — e seguirá — ligado à história do axé e do Carnaval de Salvador.
Com colaboração de Milena D’Anunciação


