Por Pedro Leo
Há quem diga que o Brasil é o país do futebol. Talvez já tenha sido.
Durante décadas, a Seleção Brasileira foi mais do que um time. Foi uma espécie de religião civil. Não exigia templos, mas transformava ruas em altares pintados de verde e amarelo. Não tinha sacerdotes, mas seus jogadores eram tratados como santos ou pecadores, dependendo do resultado. Não possuía um livro sagrado, mas carregava uma história que unia gerações em torno de uma única narrativa: a de que, quando vestia a camisa amarela, o Brasil se tornava maior do que seus próprios problemas.
A eliminação para a Noruega nas oitavas de final da Copa do Mundo de 2026 não representa apenas mais uma queda precoce. Ela simboliza mais um capítulo da lenta erosão de um dos maiores símbolos da identidade nacional.
O brasileiro nunca torceu apenas pelo futebol.
Torcia pela ideia de Brasil.
A Seleção era uma metáfora de um país que acreditava ser criativo, irreverente, talentoso e capaz de superar qualquer adversidade. Em uma nação marcada por desigualdades profundas, crises políticas e frustrações econômicas, havia um espaço onde todos podiam acreditar que éramos, sim, os melhores do mundo.
Era uma catarse coletiva.
Quando o Brasil entrava em campo, desapareciam, por algumas horas, as diferenças sociais, regionais e ideológicas. O empresário e o ambulante vestiam a mesma camisa. O morador do interior e o da metrópole gritavam o mesmo gol. Poucas instituições conseguiram produzir esse raro sentimento de pertencimento.
Mas símbolos também envelhecem.
Desde 2002, a Seleção deixou de produzir novas epopeias e passou a colecionar cicatrizes. O trauma do 7 a 1 foi apenas o episódio mais dramático de um processo maior. Bélgica. Croácia. Agora, Noruega.
Uma geração inteira cresceu conhecendo o Brasil muito mais pelas eliminações do que pelos títulos.
E isso muda tudo.
Porque identidade também é memória. Quem nunca viveu o encanto de 1994 ou de 2002 dificilmente desenvolverá a mesma devoção que seus pais e avós tiveram.
Enquanto isso, o futebol mudou.
Os ídolos jogam quase exclusivamente na Europa. Os jovens acompanham mais a Liga dos Campeões do que as Eliminatórias. Muitos sabem de cor a escalação do Real Madrid ou do Manchester City, mas não conseguem lembrar a última atuação convincente da Seleção.
A globalização não apenas internacionalizou o futebol.
Ela descentralizou os afetos.
Ao mesmo tempo, a camisa da Seleção foi sequestrada por disputas políticas que jamais deveriam ter encontrado abrigo em um símbolo nacional. O uniforme que antes representava todos passou, para muitos, a representar apenas alguns. E quando um símbolo deixa de incluir, ele inevitavelmente perde força.
Isso significa que o brasileiro deixou de amar sua Seleção?
Ainda não.
Mas talvez tenha deixado de precisar dela como precisava antes.
Hoje, a Seleção já não organiza o calendário emocional do país. As ruas são menos enfeitadas. As empresas já não param completamente. As crianças conhecem mais influenciadores do que laterais-direitos. A Copa continua importante, mas deixou de ser aquele raro instante em que o Brasil parecia concordar consigo mesmo.
Talvez este seja o maior legado negativo das últimas décadas.
Não é a ausência do hexacampeonato.
É a perda da capacidade de fazer um país inteiro sonhar junto.
Reconstruir esse vínculo exigirá muito mais do que um novo treinador ou uma geração talentosa. Exigirá devolver à Seleção algo que ela perdeu aos poucos: autenticidade, identificação e pertencimento.
Porque o torcedor suporta derrotas.
O que ele não suporta é a indiferença.
E toda nação deveria temer o dia em que sua maior paixão deixa de provocar lágrimas.
Sejam elas de alegria ou de tristeza.

