Após quase oito anos de viagem e mais de 10 bilhões de quilômetros percorridos, missão da ESA e da JAXA avança para a fase de exploração do planeta mais próximo do Sol
Depois de quase oito anos viajando pelo Sistema Solar, a missão BepiColombo deu um passo decisivo rumo ao seu principal objetivo: estudar Mercúrio, o planeta mais próximo do Sol e um dos menos explorados do Sistema Solar.
O Módulo de Transferência de Mercúrio, responsável por impulsionar a viagem da missão, se separou nesta quinta-feira (3) do conjunto formado pelas duas sondas científicas que vão estudar o planeta. A confirmação chegou ao centro de controle da Agência Espacial Europeia (ESA) às 9h53, no horário do leste dos Estados Unidos.
Segundo a equipe da missão, a espaçonave está em boas condições e operando conforme o esperado. O módulo de transferência continuará orbitando o Sol e não deverá interferir em Mercúrio.
A BepiColombo é uma missão conjunta da ESA e da Agência de Exploração Aeroespacial do Japão (JAXA). O projeto utiliza dois orbitadores com funções diferentes para investigar como Mercúrio se formou, evoluiu e conseguiu manter características tão particulares tão perto do Sol.
Por que chegar a Mercúrio é tão difícil?
A missão foi lançada em outubro de 2018 por um foguete Ariane 5, a partir do Centro Espacial Europeu, próximo a Kourou, na Guiana Francesa. Desde então, a espaçonave percorreu mais de 10 bilhões de quilômetros.
A longa viagem não é resultado apenas da distância. Para entrar em órbita de Mercúrio, a nave precisa reduzir sua velocidade até ficar compatível com a do planeta. Uma trajetória direta exigiria uma quantidade enorme de energia.
“Você pode ir mais rápido para Mercúrio se seguir uma rota direta. Mas o problema é que queremos inserir a espaçonave em uma órbita em relação a Mercúrio. É preciso levar a espaçonave à mesma velocidade de Mercúrio, e essa transferência exige muita energia”, explicou Frank Budnik, gerente de dinâmica de voo da BepiColombo na ESA.
Para solucionar o problema, a missão combinou propulsão elétrica e assistências gravitacionais. Ao todo, foram realizados nove sobrevoos da Terra, de Vênus e de Mercúrio para ajustar gradualmente a trajetória e a velocidade da espaçonave.
O nome da missão é uma homenagem ao engenheiro e matemático italiano Giuseppe “Bepi” Colombo, que estudou a rotação peculiar de Mercúrio e ajudou a desenvolver trajetórias que possibilitaram os primeiros sobrevoos da Nasa pelo planeta, na década de 1970.
Duas sondas para investigar um planeta extremo
A BepiColombo é formada por dois orbitadores científicos. O Mercury Planetary Orbiter (MPO), da ESA, ficará concentrado no estudo do próprio planeta, enquanto o Mercury Magnetospheric Orbiter (MIO), da JAXA, investigará principalmente o ambiente espacial ao redor de Mercúrio.
A expectativa é que as duas sondas sejam capturadas pela gravidade do planeta em 21 de novembro. A separação entre os dois orbitadores está prevista para ocorrer entre 9 e 10 de dezembro.
Depois, o MPO deverá alcançar sua posição orbital em 16 de dezembro, enquanto o MIO seguirá para sua órbita em 10 de março. As operações científicas dos dois equipamentos estão previstas para começar oficialmente em abril.
“Será a primeira vez que uma missão lançará duas espaçonaves totalmente independentes e totalmente operacionais ao redor de um planeta diferente”, afirmou Ignacio Tanco, chefe de Operações de Missão do Sistema Solar Interno da ESA.
Segundo Tanco, a chegada a Mercúrio não representa o fim da missão, mas o início de uma nova etapa. “Temos cerca de meio ano de operações intensas pela frente”, disse.
Um planeta próximo demais do Sol
Mercúrio está, em média, a cerca de 58 milhões de quilômetros do Sol e completa uma volta ao redor da estrela em apenas 88 dias. A proximidade faz com que a superfície do planeta enfrente condições extremas, com temperaturas que podem chegar a aproximadamente 430°C durante o dia.
O calor e a intensa radiação solar estão entre os principais desafios para a missão. As duas sondas foram projetadas para operar em condições extremas e utilizam diferentes estratégias para evitar o superaquecimento.
O MIO, por exemplo, girará 15 vezes por minuto. Já o MPO posicionará seus painéis solares em um ângulo quase perpendicular ao Sol para controlar a quantidade de radiação recebida.
“A própria espaçonave foi projetada para operar em condições extremamente adversas. É essencialmente o mesmo que operar com um forno de pizza muito quente ligado bem nas suas costas”, comparou Tanco.
Antes da BepiColombo, apenas duas missões haviam explorado Mercúrio de perto: a Mariner 10, da Nasa, na década de 1970, e a MESSENGER, que chegou ao planeta em 2011. A segunda também levou quase sete anos para completar sua viagem até Mercúrio.
Os mistérios que a missão quer desvendar
Com dois orbitadores trabalhando simultaneamente, os cientistas esperam obter uma visão mais detalhada de Mercúrio e responder a questões deixadas pelas observações anteriores.
Os equipamentos vão mapear o planeta em alta resolução e estudar sua estrutura interna, composição, superfície, campo magnético e exosfera — uma fina camada de gás que envolve o planeta.
Entre os alvos estão as crateras e os sinais de antiga atividade vulcânica encontrados na superfície.
Um dos maiores mistérios são as chamadas cavidades, pequenas depressões identificadas pelas missões Mariner 10 e MESSENGER. Elas parecem indicar que a superfície de Mercúrio sofre algum tipo de processo de erosão.
“Existem depressões na superfície que parecem indicar que ela está sendo corroída. É possível que possamos observar mudanças nessas regiões ao longo do tempo”, explicou Geraint Jones, cientista-chefe do projeto BepiColombo na ESA.
O fenômeno chama atenção porque estruturas semelhantes não foram encontradas em outros planetas do Sistema Solar. Sem vento ou água em Mercúrio capazes de produzir esse tipo de alteração, os pesquisadores ainda tentam descobrir quais processos são responsáveis pela formação das cavidades.
Por que Mercúrio é tão denso?
Outro enigma está relacionado à própria estrutura do planeta. Apesar de ser relativamente pequeno, Mercúrio possui uma densidade elevada, característica que pode estar ligada à sua história de formação.
Uma das hipóteses é que, há cerca de 4,5 bilhões de anos, quando os planetas começaram a se formar a partir dos materiais que orbitavam o Sol, Mercúrio teria sido atingido por um grande planetesimal.
O impacto poderia ter arrancado parte da crosta externa do planeta, deixando uma proporção maior de material mais denso em seu interior.
Para os cientistas, investigar a superfície e a estrutura interna de Mercúrio será fundamental para verificar essa hipótese — ou encontrar uma explicação diferente para uma das características mais intrigantes do pequeno planeta.
A expectativa é que a BepiColombo transforme essa etapa da missão em uma das observações mais detalhadas já realizadas de Mercúrio, ajudando a reconstruir não apenas a história do planeta, mas também os processos que moldaram os mundos rochosos do Sistema Solar.

