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O maior risco não é a corrupção; é a desistência

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Por : Paulo Cavalcanti

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Diante de um cenário que desanima, o impulso de abandonar o país cresce. Mas a generalização e o afastamento coletivo apenas ampliam o problema que se pretende evitar.

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Há uma constatação incômoda que precisa ser encarada sem disfarce: a corrupção no Brasil não é episódica. Ela não se limita a casos isolados nem a personagens específicos. Está presente em estruturas relevantes do Estado, mas também se manifesta em práticas cotidianas, muitas vezes naturalizadas, como o “jeitinho”, a troca de favores, a conveniência que relativiza princípios.

 

Esse acúmulo de percepções produz um efeito concreto. Gera cansaço, indignação e, em muitos casos, um movimento silencioso de afastamento. Cresce a ideia de que não vale a pena insistir no país, no sistema ou em qualquer tentativa de transformação. Quando tudo parece contaminado, a reação instintiva é recuar.

 

A corrosão que se vê e o erro de generalizar

 

O problema é que essa leitura, embora compreensível, incorre em um erro de base: transforma um quadro grave em uma sentença definitiva. Reconhecer a existência de corrupção e distorções não autoriza a generalização.

 

Em qualquer estrutura, seja pública ou privada, coexistem condutas distintas. Ao lado de práticas condenáveis, há pessoas que mantêm padrões éticos, cumprem deveres e sustentam, muitas vezes de forma discreta, o funcionamento institucional.

 

Esses agentes não costumam ocupar espaço nas manchetes nem gerar repercussão, mas são eles que impedem a deterioração completa. Ignorá-los, ao nivelar tudo por baixo, produz um efeito colateral relevante: enfraquece justamente aquilo que ainda funciona.

 

A generalização, portanto, não é apenas um erro de análise; é um fator de agravamento do problema. Ao eliminar distinções, reduz a capacidade de julgamento crítico e contribui para a erosão de referências positivas.

 

Entre o diagnóstico e a desistência

 

Nesse contexto, a desistência surge como uma saída individual compreensível, mas coletivamente danosa. Países não entram em colapso apenas por falhas estruturais. Colapsam quando há afastamento dos que poderiam agir, quando o senso de responsabilidade cede lugar ao desânimo e quando a crítica deixa de ser instrumento de correção para se tornar justificativa para a inação.

 

A alternativa não está na negação da realidade, mas na forma de enfrentá-la. Exige reconhecer os desvios sem comprometer a estrutura como um todo, manter a capacidade de distinção e exercer cobrança qualificada.

 

Isso passa por um ponto central: desenvolver consciência, maturidade e responsabilidade cidadã. Não como simples conceito, mas como prática. Separar o que é desvio do que é estrutura. Cobrar com firmeza sem destruir o que ainda funciona. Apoiar quem faz o certo e isolar quem faz o errado.

 

O Brasil não será transformado pela desistência. Será moldado pelas escolhas de quem decide permanecer lúcido, agir com responsabilidade e não terceirizar o que é essencial.

 

Enquanto houver pessoas dispostas a agir nesses termos, não há justificativa para decretar que o país não tem saída. Afinal, o futuro do Brasil é da nossa conta. E ele começa agora.

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