A chegada da Semana Santa acende uma expectativa positiva para bares e restaurantes em toda a Bahia, impulsionada tanto pelo aumento do fluxo turístico quanto pela tradição do consumo de pescados durante o período da Quaresma. Após meses de desafios financeiros, o feriado aparece como uma oportunidade estratégica para reforçar o caixa e recuperar parte das perdas acumuladas ao longo do início do ano.
Levantamento da Associação Brasileira de Bares e Restaurantes (Abrasel) mostra que 63% dos estabelecimentos no país esperam aumentar o faturamento em relação ao mesmo período do ano passado. A maior parte das projeções é moderada, com crescimento de até 10%, mas há também empresários que apostam em resultados mais expressivos, especialmente em destinos turísticos como Salvador e cidades do litoral baiano.
De acordo com os dados, 19% dos empresários projetam aumento de até 5% no faturamento, enquanto 22% esperam crescimento entre 6% e 10%. Outros 12% estimam alta entre 11% e 20%. Já uma parcela menor, mas significativa, acredita em um avanço mais robusto: 8% preveem faturar até 50% a mais e 2% trabalham com expectativa de crescimento acima desse patamar. Por outro lado, 21% dos estabelecimentos esperam estabilidade, 6% temem queda e cerca de 10% afirmam que não devem abrir durante o feriado.
Em Salvador, a expectativa acompanha o cenário nacional, mas com um diferencial importante: o peso do turismo. Donos de bares e restaurantes em regiões como Barra, Rio Vermelho e Pelourinho apostam em um aumento no movimento, principalmente de visitantes de outros estados e estrangeiros.
Segundo empresários a Semana Santa costuma ser um período de cardápios adaptados, com maior oferta de pratos à base de peixes e frutos do mar, além de promoções específicas para atrair clientes. Para muitos, a data representa uma das primeiras oportunidades do ano para equilibrar as contas após um começo marcado por despesas elevadas e receitas instáveis.
“A gente já sente uma procura maior por reservas e consultas sobre o cardápio. É um período que ajuda muito, principalmente porque o início do ano foi difícil”, relata Gustavo Arcanjo, dono de restaurante no bairro do Rio Vermelho. Ele afirma que a expectativa é de crescimento moderado, mas importante: “Se vier um aumento de 10%, já ajuda bastante a organizar o fluxo de caixa”, afirma.
A avaliação também é compartilhada pela seccional baiana da Abrasel, que destaca o impacto direto do turismo no desempenho do setor durante o feriado. “Na Bahia, a Semana Santa tem um peso ainda maior por conta do fluxo de visitantes, especialmente em Salvador e no litoral. Esse aumento de movimento costuma refletir diretamente no faturamento dos bares e restaurantes, que se preparam com cardápios específicos e reforço nas equipes para atender à demanda”, afirma a entidade.
A Abrasel Bahia também chama atenção para o papel estratégico do período dentro do calendário do setor. “Depois de meses mais desafiadores, a Semana Santa funciona como uma oportunidade importante de recomposição de caixa. Muitos estabelecimentos
chegam pressionados por custos altos e precisam aproveitar datas como essa para equilibrar as contas e ganhar fôlego para os próximos meses”, pontua.
Setor ainda carrega sinais de alerta
Apesar do otimismo, o setor ainda carrega sinais de alerta. Dados da Abrasel indicam que fevereiro foi um mês particularmente desafiador: a parcela de empresas operando no prejuízo saltou de 23% em janeiro para 33%, enquanto 36% ficaram no ponto de equilíbrio e apenas 30% registraram lucro. Na prática, quase sete em cada dez negócios encerraram o mês sem resultado positivo.
Esse cenário é agravado pela dificuldade de repassar custos ao consumidor. Segundo dados do IBGE, a inflação da alimentação fora do lar subiu 0,34% em fevereiro, abaixo do índice geral de 0,70%. A diferença revela que, mesmo com o aumento dos custos, muitos estabelecimentos optaram por segurar preços para não perder clientela, o que acaba comprimindo as margens de lucro.
Além disso, o endividamento segue sendo uma preocupação relevante. Cerca de 38% das empresas relataram pagamentos em atraso, com destaque para impostos federais, apontados por 68% dos empresários endividados, seguidos por tributos estaduais, empréstimos bancários e fornecedores.
Para o presidente-executivo da Abrasel, Paulo Solmucci, a Semana Santa ganha ainda mais relevância diante desse contexto. Segundo ele, a data funciona como um ponto de respiro para um setor que ainda enfrenta dificuldades estruturais.
“A Semana Santa costuma trazer um aumento relevante de movimento para o setor, reforçado pela alta tradicional do consumo de pescado durante a Quaresma. É uma data que ajuda a gerar caixa, atrair clientes e abrir espaço para cardápios mais estratégicos, o que pode fazer diferença para muitos negócios que vêm de meses apertados”, afirma.
Ele ressalta que, apesar da resiliência demonstrada pelos empresários, o momento ainda exige cautela. “Quando a empresa não consegue repassar custos, perde margem; quando perde margem por muito tempo, compromete o caixa e aumenta o risco de atrasos. Por isso, datas como a Semana Santa são fundamentais para ajudar na recomposição da receita”.
Na Bahia, onde o turismo desempenha papel central na economia, a expectativa é que o feriado religioso funcione como um termômetro para os próximos meses. Com a proximidade de outros períodos de alta movimentação, como o São João, o desempenho agora pode indicar se o setor conseguirá retomar um ritmo mais consistente ao longo de 2026.
Fonte: Tribuna da Bahia
Foto: Romildo de Jesus/Tribuna da Bahia


