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Terapia celular inovadora pode eliminar uso de insulina em pacientes com diabetes tipo 1, diz estudo

Tratamento experimental com células-tronco oferece o que especialistas chamam de "cura funcional" e deve ter aprovação solicitada em 2026

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Um estudo recente, liderado por cientistas da Universidade da Pensilvânia, nos Estados Unidos, e publicado no prestigiado New England Journal of Medicine, está sendo considerado transformador no tratamento do diabetes tipo 1. A pesquisa apresentou resultados promissores de uma terapia celular inédita que pode eliminar a necessidade de injeções de insulina em pessoas com a condição.

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O novo tratamento, chamado zimislecel, consiste em uma única infusão de células pancreáticas cultivadas em laboratório a partir de células-tronco humanas. Essas células funcionam como uma versão artificial das ilhotas de Langerhans, responsáveis por produzir insulina no pâncreas. Após a infusão, elas se instalam no fígado e passam a desempenhar a função das células beta, detectando os níveis de glicose no sangue e produzindo insulina naturalmente, como se o organismo jamais tivesse desenvolvido a doença.

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De acordo com os dados divulgados, 10 dos 12 pacientes tratados passaram um ano sem precisar de insulina suplementar. A médica Andressa Heimbecher, doutora em Endocrinologia pela USP, avaliou que, embora o estudo ainda esteja na fase 2 e com número reduzido de pacientes, a expectativa é de que em até 10 anos a terapia esteja disponível de forma segura e em escala global.

Ela destaca que o principal avanço é o uso de células-tronco diferenciadas para formar ilhotas pancreáticas funcionais, algo inédito em tratamentos clínicos. Segundo a especialista, o objetivo da terapia é devolver ao organismo o controle natural da glicose, regulado pelo próprio corpo, sem depender da administração externa de insulina.

O diabetes tipo 1 é uma doença autoimune, em que o sistema imunológico destrói as células que produzem insulina. Desde 1922, pacientes dependem de insulina animal ou sintética, aplicada antes das refeições. Ferramentas modernas, como bombas de insulina e monitores contínuos de glicose, ajudam no controle, mas não impedem totalmente os picos e vales de açúcar no sangue, que podem causar sérios danos à saúde.

Em 2023, a FDA (Agência de Alimentos e Medicamentos dos EUA) aprovou uma terapia com células pancreáticas de doadores falecidos, mas a necessidade de múltiplos pâncreas por paciente torna essa alternativa pouco viável em larga escala.

A solução proposta pela farmacêutica Vertex, criadora da zimislecel, é cultivar essas células em laboratório, a partir de células-tronco humanas. Os primeiros testes envolveram a injeção de centenas de milhões dessas células nas veias dos participantes, que passaram a produzir insulina de forma eficaz, informa CNN Brasil.

Apesar dos resultados animadores, a terapia enfrenta obstáculos, como os efeitos colaterais da imunossupressão, necessária para evitar que o corpo rejeite as células “estranhas”. Durante o estudo, duas mortes foram registradas, embora não relacionadas diretamente à terapia. Os efeitos adversos mais comuns foram diarreia, dor de cabeça, náuseas e infecções, atribuídos ao uso de medicamentos imunossupressores.

A médica Andressa Heimbecher afirma que o desafio agora é encontrar uma “receita de bolo” que permita o funcionamento eficaz das células com mínimos efeitos colaterais. A Vertex já ampliou o ensaio clínico para incluir 50 participantes, quase todos já tratados, e pretende solicitar a aprovação regulatória do tratamento em 2026.

Se os dados continuarem promissores, o zimislecel poderá representar uma virada histórica no tratamento do diabetes tipo 1, com potencial para oferecer uma vida livre das rotinas exaustivas de monitoramento e injeções de insulina.

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