O tradicional café da manhã do soteropolitano está ficando mais caro. Em padarias, delicatessens, lanchonetes e pontos de venda ambulante espalhados por Salvador, consumidores já sentem no bolso o impacto da alta do leite e de outros itens básicos consumidos diariamente.
Entre o Largo do Dois de Julho, Nazaré e o Corredor da Vitória, o cenário se repete: cafés mais caros, redução no consumo e clientes tentando adaptar os hábitos diante dos reajustes sucessivos. Dados divulgados pelo IBGE nesta semana mostram que o leite longa vida esteve entre os produtos que mais pressionaram a inflação oficial do país em abril de 2026. Segundo o levantamento, o produto acumulou alta de 13,66% e teve um dos maiores impactos individuais no Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo, o IPCA.
O aumento do leite acabou atingindo diretamente cafeterias, panificadoras, delicatessens e vendedores ambulantes que dependem diariamente dos derivados lácteos para manter cardápios e combos tradicionais.
Em Salvador, o avanço dos preços também aparece nos levantamentos regionais sobre alimentação. Dados da Superintendência de Estudos Econômicos e Sociais da Bahia mostram que a cesta básica da capital passou a custar R$ 624,01 em abril de 2026, registrando a quarta alta consecutiva no indicador.
Outro levantamento aponta que a cesta básica em Salvador acumulou alta de 7,14% na comparação entre abril de 2025 e abril de 2026, colocando a capital baiana entre as maiores elevações do país.
No Largo do Dois de Julho, comerciantes relatam dificuldade para equilibrar os custos sem afastar clientes. O café com leite, antes considerado uma das opções mais acessíveis das padarias populares, passou por reajustes devido ao aumento do leite, manteiga, queijo, energia elétrica e transporte.
A aposentada Maria das Graças Santos, de 67 anos, conta que reduziu a frequência das visitas às padarias da região. “Hoje eu penso duas vezes antes de parar para tomar café. O que antes era um hábito simples virou um gasto pesado no fim do mês”, afirma.
Em Nazaré, vendedores dizem que muitos consumidores passaram a pedir apenas o café ou reduziram acompanhamentos como salgados e fatias de bolo.
No Corredor da Vitória, onde cafeterias e delicatessens atraem moradores de maior poder aquisitivo e turistas, os reajustes também já são percebidos. O advogado Marcelo Almeida, de 38 anos, afirma que o custo do café da manhã fora de casa praticamente dobrou em alguns estabelecimentos nos últimos anos.
“Antes eu tomava café na rua quase todos os dias. Hoje virou algo ocasional. Um café da manhã simples já pesa muito dependendo do lugar”, comenta.
Segundo o Sindipan, o setor enfrenta aumento contínuo nos custos de produção, principalmente em itens como leite, trigo, manteiga, energia elétrica e combustíveis.
Dados históricos da Associação Brasileira da Indústria de Panificação e Confeitaria mostram que o setor de panificação está entre os maiores segmentos da cadeia alimentícia nacional e possui forte impacto econômico na Bahia, gerando milhares de empregos diretos e indiretos.
Representantes do segmento afirmam que muitas padarias tentam evitar reajustes bruscos para não perder clientes, mas alertam que a pressão sobre os custos tornou inevitável o aumento de diversos produtos vendidos diariamente.
Nas ruas próximas ao Campo Grande e à Avenida Sete, vendedores ambulantes também relatam dificuldades. Alguns afirmam que precisaram diminuir o tamanho dos copos de café ou reajustar o preço do pão com manteiga para conseguir manter as vendas. Para a nutricionista Larissa Menezes, é possível manter um café da manhã saudável sem comprometer tanto o orçamento familiar.
“Alimentos regionais como cuscuz, banana, aipim, ovos e frutas da estação continuam sendo alternativas nutritivas e mais econômicas. O importante é evitar desperdícios e reduzir a dependência de produtos industrializados e refeições prontas”, explica.
Ela afirma ainda que organizar as refeições em casa pode gerar economia significativa ao longo do mês. “Muitas vezes o consumidor associa praticidade ao consumo fora de casa, mas pequenas mudanças na rotina ajudam bastante financeiramente sem prejudicar a qualidade da alimentação”, acrescenta.
Fonte: Tribuna da Bahia
Foto: Romildo de Jesus/Tribuna da Bahia

