Por Cristina Jardim e Bárbara Nascimento
Todo mês de agosto, dezenas de mulheres tomam as ruas de Cachoeira carregando consigo uma história de fé e resistência.
Localizada no Recôncavo Baiano, Cachoeira é um mosaico de fé e luta. A cidade abriga uma das mais antigas confrarias religiosas do Brasil: a Irmandade de Nossa Senhora da Boa Morte. Fundada no século XIX, em Salvador, ela chega em Cachoeira por volta de 1860, após ser expulsa devido à participação em revoltas populares. Enquanto algumas seguiram para o Benin, outras se estabeleceram na cidade.
Apesar da relação com a santa católica, a festa tem raízes no candomblé. A morte de Maria é uma metáfora, que simboliza seus antepassados. Como destaca o historiador, Cacau Nascimento, “o respeito por trás da festa vem do invisível, naquele momento não há apenas a santa morta, há também a relação com outras forças e orixás, a festa mexe com a morte.”
A festa
Os rituais de preparação para a festa ocorrem no primeiro sábado de agosto. Nesse dia, as irmãs realizam a Esmola Geral, saindo da sua sede vestidas de crioulas, com batas brancas e saias coloridas, além de uma bolsa de veludo vermelha com as iniciais N.S.B.M. Elas pedem esmolas pelo centro da cidade para demonstrar humildade e fé.
Um cortejo com a imagem de Nossa Senhora adormecida, abre a programação oficial, no dia 13 de agosto. As irmãs saem da Capela d’Ajuda, vestidas de branco, percorrendo um quarteirão até a sede da irmandade, localizada no Largo d’Ajuda. Lá, celebram uma missa em memória das irmãs falecidas e realizam a Ceia Branca, uma confraternização que abre a Semana Santa de Nossa Senhora. Diferente da ceia tradicional de pão e vinho, o cardápio inclui frutos do mar e salada verde.
No dia seguinte, ocorre uma missa simbólica na Capela da Boa Morte, seguida pela procissão do enterro. Nesse momento, as irmãs vestem uma saia plissada preta, uma blusa conhecida como “blusa de rapariga” (termo usado na época para mulheres viúvas ou divorciadas) e um pano que cobre parte do rosto, chamado de “bioco”. A vestimenta faz referência às roupas das mulheres muçulmanas malês (africanas e descendentes de africanos que seguiam a religião islâmica e tiveram participação importante na resistência negra na Bahia).
No dia 15, é celebrada a Festa da Nossa Senhora da Glória. As irmãs vestem-se com becas pretas, xales vermelhos e contas de orixás. Essa vestimenta é uma ressignificação da roupa da realeza africana, adaptada para representar a negra livre, do “partido alto” (expressão associada, nesse contexto, a mulheres negras livres que conquistaram posição social e reconhecimento na sociedade da época). Após a missa solene, percorrem as ruas principais da cidade, até sua sede, onde dançam a valsa e servem almoço aos presentes. Nos dias 16 e 17, ocorre o samba de roda no Largo d’Ajuda, seguido de caruru e cozido.

A força da irmandade em Cachoeira
Em Cachoeira, a comunidade acompanha de perto as celebrações da Boa Morte e demonstra respeito pelos rituais, reconhecendo a importância religiosa da irmandade. Segundo o historiador Cacau Nascimento, embora muitas pessoas acompanhem a festa como espectadoras, os ritos ligados ao candomblé exigem respeito e cuidado de quem participa. “As pessoas veem de fora, mas estando dentro dela, de uma forma muito respeitável, porque aquilo ali é muito perigoso do ponto de vista do candomblé”, observa Nascimento. O respeito ocorre em suas casas, na passagem da imagem durante a procissão, as portas que são fechadas, um símbolo de apreço pelo que está ocorrendo.
Para os visitantes, a festa é uma imersão profunda nas tradições afro-brasileiras e um testemunho da resistência cultural. “É uma festa que não deixa perder sua cultura e que predomina cada vez mais a religião”, enfatiza Marlene Andrade, moradora de Santo Amaro, mas frequentadora fiel do evento.
A Boa Morte não é apenas uma instituição religiosa, é um exemplo de como comunidades marginalizadas constroem e sustentam tradições. Como evidencia Valmir da Boa Morte, administrador do Memorial da Irmandade, “a importância da Irmandade da Boa Morte não é só a marca, é a preservação. É por serem guardiãs do legado, uma grande reflexão da força da mulher. E isso se reflete nos dias de hoje.”.
E assim, em cada passo das irmãs, a memória dos ancestrais ecoa, transformando a morte em um elo eterno de resistência e fé. A Boa Morte, em Cachoeira, é um testemunho vivo da força e da espiritualidade que transcende gerações.

