Uma cena comum, mas ainda pouco compreendida: uma criança em sofrimento intenso, muitas vezes interpretado de forma equivocada. Afinal, é crise ou birra? Essa é uma das principais dúvidas quando o assunto é o Transtorno do Espectro Autista (TEA).
Especialistas explicam que a crise não é uma escolha da criança, mas uma resposta do corpo a um estado de sobrecarga. “Tudo e qualquer coisa pode ser gatilho pra uma crise”, afirma a psicóloga e coordenadora técnica Vitória Cohen. Estímulos aparentemente simples, como luz forte, barulho ou mudanças no ambiente, podem desencadear reações intensas. “Por exemplo, uma luz muito forte já pode desestruturar”, completa a psicóloga infantil Juliana Doria.
Diferente da birra, que geralmente envolve intenção e busca por algo específico, a crise está relacionada a um colapso emocional. É como se o sistema da criança entrasse em pane. “A gente entende a crise como algo em que a criança não vai responder aos comandos, até que consiga se autorregular”, explica Juliana.
Segundo os especialistas, existem sinais que antecedem esse momento mais crítico. Mudanças no comportamento, agitação, movimentos repetitivos e dificuldade de comunicação podem indicar que a criança está entrando em sobrecarga. “Ela vai escalonando os comportamentos, que vão se tornando mais intensos”, destaca Juliana.
Identificar esses sinais precoces é fundamental para evitar o agravamento da crise. Estratégias de regulação sensorial podem ajudar nesse processo. Objetos com diferentes texturas, cores e estímulos táteis são aliados importantes. “Esses objetos funcionam como reguladores. A gente pode usar no momento da pré-crise para acalmar e redirecionar o foco da criança”, orienta a especialista.
No entanto, quando a crise já está instalada, a abordagem precisa ser diferente. “A criança em crise não sabe o que está fazendo”, reforça Juliana. Nesses casos, o mais indicado é garantir a segurança e aguardar que ela retome o controle emocional. Em ambientes clínicos, profissionais capacitados podem realizar contenções seguras e humanizadas.
Juliana Doria possui certificação internacional em PCM, um programa voltado ao gerenciamento humanizado de crises em pessoas com autismo, o que permite uma intervenção adequada e respeitosa nesses momentos.
Para a fisioterapeuta e sócia-fundadora da clínica, Priscila Sampaio, a informação ainda é um dos maiores desafios. “Existe uma certa carência de informação. Quanto mais a gente informa e capacita as pessoas, mais essa criança vai estar assistida”, pontua.
A conscientização sobre o autismo é essencial para promover empatia e garantir que crianças no espectro recebam o cuidado adequado. Entender a diferença entre crise e birra é um passo importante para construir uma sociedade mais inclusiva e preparada.


