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Saúde mental, música e importância de pedir ajuda

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Envolve-se de verdade com a música, ou com qualquer arte, sempre tem um custo. e esse custo pesa mais ainda quando você não nasceu numa família com estrutura suficiente pra bancar essa relação como quem banca um hobby. foi assim comigo desde cedo. lá pelos sete anos já estava tocando teclado no ministério de louvor da igreja, sem professor, aprendendo de ouvido, tentando imitar quem tocava melhor. aos dez, já tinha banda. Ninguém me ensinou nada, fui me virando sozinho, e aquilo se tornou o fio que manteve viva a minha relação com a música numa fase da vida em que eu nem sabia que estava fazendo arte.

Aquela relação que começou sem querer, ainda moleque, foi crescendo comigo, e com ela cresceram também as dúvidas que toda arte carrega. hoje isso virou quase um ritual semanal. tem semana que penso seriamente em prolongar essa vida de gente criativa, por um monte de razão diferente. trago como exemplo isto aqui. mal comecei esse projeto de escrever e já bateu vontade de parar. mas na semana seguinte, geralmente, aparece uma ideia nova de texto, um formato diferente de escrever, e a animação volta com a mesma força. esse vaivém nunca foi fraco, é apenas o preço de levar arte a sério.

A justamente esse histórico que me faz prestar atenção em algo que sempre me incomodou: durante muito tempo, falar sobre saúde mental foi encarado como sinal de fraqueza. isso vem mudando, ainda que lentamente, mas segue existindo uma galera, principalmente gente com idade próxima a minha, 30+, enfrentando ansiedade, depressão, crises de pânico, solidão e baixa autoestima sem saber muito bem o que fazer com tudo isso.

Toda vez que alguém diz que uma canção salvou a própria vida, tem gente que acha exagerado. mas quem já passou por um momento difícil sabe que essa frase não tem nada de exagerada. tem hora em que a única coisa que faz sentido não vem de conversa com amigo nem de sessão de terapia, vem de uma letra tocando baixinho no fone, de madrugada, dizendo exatamente aquilo que você não conseguiu colocar em palavras.

foto reprodução da internet: colaboração entre jay ze linkin park. personalidades do rap e do rock; 

Isso não é acaso. Cenas musicais inteiras nasceram justamente pra dar voz ao que não cabe numa conversa comum. rap, rock, trap, hardcore, emo, metal, cada gênero e/ou subgênero musical com seu jeito próprio de exportar o que a maioria prefere calar. não é sobre estética, é sobre sobrevivência emocional. quem cresceu perto dessas cenas sabe que ali a música nunca foi só trilha sonora, foi abrigo.

E o abrigo é diferente de fuga. um bom verso não distrai de um problema, ele nomeia esse problema. transformar em palavra uma dor que, até então, só existia como abertura no peito. e o simples ato de nomear já muda alguma coisa por dentro; de repente você entende que não está sozinho na própria cabeça, porque alguém, num disco gravado muito antes de você nascer, sentindo exatamente aquilo antes.

foto: divulgação.

Tem ainda a questão do pertencimento. muita gente se sente fora do lugar em casa, no trampo, em ambiente acadêmico, até entre família e amigos. quando essa pessoa encontra uma banda, um show, uma comunidade de gente que curte a mesma parada, ela deixa de ser uma estranha e passa a fazer parte de algo maior. pertencer é remédio contra o isolamento, um dos fatores que mais agravam questões de saúde mental.

Só que existe um cuidado essencial aqui: música acolhedora, mas não trata. ela alivia uma noite ruim, dá força para atravessar uma fase pesada, mas não substitui olhar profissional nenhum. quando o sofrimento deixa de ser passageiro e passa a dominar a rotina, atrapalhando o trabalho, o estudo, as relações, ou fazendo surgir a sensação de que nada mais vale a pena, chegou a hora de procurar ajuda especializada. Psicólogo e psiquiatra não estão ali para julgar, estão ali para ajudar a entender o que está acontecendo e encontrar o caminho para sair do lugar onde está preso.

O problema é que ainda existe muito preconceito em volta disso. Tem gente que enxerga terapia como derrota, quando na real é o oposto: reconhecer que algo não vai bem exigir uma coragem que a maioria não tem. e nem todo sofrimento parece óbvio. muita gente sorri, trabalha, estuda e segue a rotina inteira carregando uma guerra silenciosa por dentro. por isso vale a pena reparar em quem está por perto, principalmente em quem parece cansado demais, quieto demais, ausente demais.

Às vezes tudo o que falta é uma pergunta sincera, feita sem pressa e sem cobrança. uma pessoa nem sempre quer conselho, muitas vezes só precisa sentir que alguém está mesmo disposto a escutar. e se você for essa pessoa carregando peso demais sozinha, vale lembrar: pedir ajuda não é sinal de que você perdeu o controle da própria vida, é sinal de que decidiu cuidar dela.

Muitos dos discos mais marcantes da história nasceram exatamente de momentos difíceis, de perdas, de crise. isso prova que dor pode virar arte, pode virar ponte pra alguém que atravessa algo parecido. mas isso não quer dizer que sofrer seja pré-requisito pra criar, nem que dor preciso ser romantizado pra valer alguma coisa. buscar ajuda não interrompeu a criação, garanta que ela continue existindo.

A música vai continuar sendo abrigada, isso não muda. ela vai seguir do seu lado nos dias de raiva, de tristeza, de superação. mas funciona ainda melhor quando caminha junto do cuidado com você mesmo. se uma música já te fez sentir que você não estava sozinho, permita que uma pessoa de verdade faça sentir isso também. nenhuma batalha precisa ser enfrentada em silêncio.

Pra quem gosta de rock…

https://www.youtube.com/watch?v=lRTRBoBLgow

Antes de encerrar, deixo aqui uma indicação que garimpei recentemente nessas viagens pelo spotify e que tem tudo a ver com o que foi dito até aqui; a banda nacional Morning Sky, que lançou há pouco tempo o seu primeiro ep “life, death and love” ( ouça ), que fala justamente sobre saúde mental em tempos de caos. vale muito a pena dar uma conferida. e já aproveito pra deixar o convite: comente aí abaixo outras restrições de banda, relatos, o que quiser dividir. vamos encher essa seção de comentários só de coisa boa. e não esqueci: você não está sozinho.

 

Fonte: Medium

Foto: imagem reproduzida por ia.

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