Enquanto grande parte dos moradores de Salvador dorme, uma rede de trabalhadores segue em atividade para garantir que a cidade esteja pronta para um novo dia. São profissionais que atuam na mobilidade, limpeza urbana, abastecimento e iluminação pública, em jornadas que começam quando boa parte da população está em casa e terminam apenas pela manhã.
Por trás dos ônibus que começam a circular, das ruas limpas, das feiras abastecidas e das vias iluminadas, existem histórias de pessoas que transformaram o trabalho noturno em parte da rotina.
Antes do amanhecer, ônibus já estão sendo preparados
Aos 62 anos, Jerusa Maria de Santana Fiuza, agente de Transporte e Trânsito da Secretaria Municipal de Mobilidade (Semob), trabalha há 36 anos acompanhando a operação nas garagens de ônibus de Salvador.
Em uma escala rotativa, ela passa por diferentes garagens da cidade. O expediente começa ainda na madrugada. Às 2h20, Jerusa sai de casa, no bairro de São Caetano. Às 3h, já está na garagem para acompanhar a limpeza dos veículos, verificar as condições de funcionamento, o elevador de acessibilidade e realizar a vistoria antes da saída dos coletivos.
“Eu faço com que cada ônibus saia das garagens com segurança, limpo e devidamente no horário, para que a população chegue com segurança aonde for.”
Os veículos que não estão em condições adequadas ficam retidos até que os problemas sejam solucionados. O turno de Jerusa termina às 11h.

Depois de décadas trabalhando durante a madrugada, ela diz que existe uma satisfação especial em acompanhar a cidade despertando.
“Quando vejo a cidade começando a acordar, tenho orgulho de ser o que escolhi ser, contribuindo para que essa mobilidade aconteça, feita por pessoas que, muitas vezes, nem sequer são percebidas.”
Para ela, o trabalho dos agentes de trânsito e transporte também está relacionado à segurança da população.
“O nosso trabalho é fazer a cidade acordar com segurança.”
Feira começa antes do sol nascer
A rotina de Rosângela dos Santos Gonçalves, de 46 anos, também começa quando a cidade ainda está silenciosa. Feirante há 17 anos no Mercado Municipal de Periperi, administrado pela Secretaria Municipal de Ordem Pública (Semop), ela acorda às 3h para buscar os produtos que serão vendidos ao longo do dia.
Às 4h, segue para a Feira de São Joaquim. Duas horas depois, retorna ao mercado com frutas frescas. Às quartas e sextas-feiras, a rotina inclui ainda uma passagem pelo Ceasa para a compra de frutas refrigeradas.
“Maçã, ameixa, kiwi, melancia, mamão, abacaxi, fruta de qualidade é comigo mesmo.”
Apesar do horário, Rosângela encontra momentos especiais no caminho.
“São nessas horas que conseguimos observar o nascer do dia, os primeiros raios solares, e é surreal.”
O período chuvoso, porém, traz dificuldades. Ela lembra que já enfrentou problemas de visibilidade e chegou a ter o carro quase parado durante um alagamento.
Enquanto a cidade dorme, a limpeza continua
Na limpeza urbana, o trabalho também atravessa a madrugada. Jadson Conceição, de 39 anos, atua há quase nove anos como coletor domiciliar nos bairros do Imbuí e da Pituba.
Seu turno começa às 17h40, quando chega à empresa, e termina por volta das 2h.
“Na nossa rotina de trabalho, tentamos sempre dar o nosso melhor e manter a cidade limpa. O maior desafio de trabalhar nesse horário é o cansaço físico da noite. E o que as pessoas não percebem é que, quando elas acordam, Salvador já está limpa.”
Para Jadson, o trabalho representa também uma contribuição para a saúde pública e a preservação do meio ambiente.
Ele conta que a pandemia foi um dos momentos mais marcantes da trajetória profissional e afirma perceber uma maior valorização do trabalho dos coletores.
Luzes acesas exigem trabalho durante toda a noite
A iluminação pública também mantém equipes em atividade durante a madrugada. A operação funciona 24 horas por dia, sete dias por semana.
Gerente de manutenção da Diretoria de Iluminação Pública (Dsip), vinculada à Semop, Leonardo Pimentel trabalha há mais de 20 anos na área de Engenharia. Há seis anos, acompanha diretamente as equipes responsáveis pela manutenção da iluminação de Salvador.
A rotina inclui rondas e atendimento a ocorrências emergenciais. As equipes começam a circular ao anoitecer para identificar vias com problemas de apagão ou instabilidade nos circuitos.
“É comum começar o turno com uma programação e, no meio do caminho, surgir uma ocorrência que muda tudo”, explica.
O trabalho envolve situações como falhas em equipamentos, cabos rompidos ou furtados e problemas nos circuitos.
“Às vezes, a pessoa só percebe que a rua está escura e pensa: Mas pode ser um problema na rede, um cabo, um equipamento, um circuito, um cabo cortado ou furtado. Tem toda uma investigação e uma equipe trabalhando para resolver.”
Além dos desafios técnicos, há o próprio ambiente de trabalho. Chuva, vento, locais isolados e o horário de descanso são fatores que exigem atenção constante.
Uma cidade que não para
Para Leonardo, a melhor parte da rotina é perceber o resultado do trabalho quando a madrugada chega ao fim.
“Quando começa a amanhecer, você vê as pessoas saindo de casa, o comércio começando a abrir e os ônibus circulando. A cidade começa a ganhar vida novamente.”
Em períodos de grande movimentação, como Carnaval e Réveillon, as equipes podem permanecer em operação pelo tempo necessário para solucionar ocorrências e garantir o funcionamento dos serviços.
No fim, o trabalho desses profissionais faz parte de uma engrenagem que começa a funcionar muito antes de Salvador despertar.
“A cidade não pode parar porque anoiteceu. Enquanto as pessoas dormem, tem muita gente trabalhando para que, no dia seguinte, tudo continue funcionando.”
Fotos: Ascom Dsip e Semob


