Fenômeno deve se tornar mais frequente e abrangente com a intensificação do El Niño; setembro já tem previsão de temperaturas até 3°C acima da média
O Brasil deve enfrentar pelo menos seis ondas de calor nos próximos meses, segundo uma análise do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden). O cenário pode ser ainda mais intenso: durante o último episódio de El Niño, o país registrou nove ondas de calor.
A diferença é que o calor extremo não deve ficar restrito a determinadas regiões. De acordo com os pesquisadores, os episódios vêm se tornando mais frequentes e abrangentes, podendo atingir praticamente todo o território brasileiro ao mesmo tempo.
E há outro fator que chama atenção: a previsão de um Super El Niño, que pode estar entre os mais intensos já registrados. O fenômeno deve contribuir para um cenário de temperaturas elevadas e períodos de seca em algumas áreas, enquanto outras regiões podem enfrentar chuvas intensas.
Apesar das diferenças regionais, existe um ponto em comum: o calor deve ser uma das principais marcas dos próximos meses.
Afinal, o que é uma onda de calor?
Não basta um dia de temperaturas altas para caracterizar uma onda de calor.
O fenômeno ocorre quando, durante pelo menos três dias consecutivos, as temperaturas máximas e mínimas permanecem excepcionalmente acima dos padrões considerados normais para determinada região.
Ou seja: não é apenas calor intenso. É calor persistente, sem trégua.
A estimativa de pelo menos seis episódios foi construída a partir de uma pesquisa que analisou 47 anos de registros de temperatura, considerando a ocorrência do fenômeno em períodos de El Niño.
Segundo a pesquisadora Mabel Calim Costa, doutora em Ciências do Sistema Terrestre e responsável pelo estudo de ondas de calor no Cemaden, a quantidade pode ser ainda maior caso o El Niño se intensifique.
“Essa é uma média, mas vimos no último El Niño o país viver nove ondas de calor, com dias extremamente quentes. Com as temperaturas dos oceanos subindo, pode ser que o cenário seja ainda mais intenso e isso traz consequências para o país”, explica.
O calor está chegando a mais lugares
A análise do Cemaden aponta uma mudança importante no comportamento das ondas de calor nas últimas décadas.
Durante os anos 1980 e 1990, os episódios de calor extremo eram menos frequentes e mais concentrados em determinadas regiões, especialmente no Nordeste.
O cenário começou a mudar a partir de 2010 e se tornou ainda mais evidente depois de 2020. As ondas de calor passaram a ocorrer com maior frequência e a atingir áreas cada vez maiores do território nacional.
Na prática, episódios que antes ficavam mais restritos a determinadas partes do país passaram a alcançar regiões simultaneamente.
Para Mabel Calim Costa, o fenômeno aumenta a vulnerabilidade de populações que já enfrentam temperaturas naturalmente elevadas e de áreas que não possuem estrutura suficiente para lidar com períodos prolongados de calor extremo.
“A gente percebe que a onda de calor passa a afetar todo o país e isso é uma questão porque estamos falando de calor adicional em áreas já quentes e em áreas que também não têm resiliência para enfrentar temperaturas tão altas”, afirma.
Por que as ondas de calor acontecem?
Um dos principais gatilhos é a formação de áreas de alta pressão atmosférica que permanecem estacionadas sobre determinada região por vários dias.
Esses sistemas funcionam como uma espécie de tampa sobre a atmosfera: dificultam a formação de nuvens e a chegada de chuva, mantendo uma massa de ar seco e quente sobre o local.
Com menos nuvens e chuva, o solo perde umidade e a temperatura sobe ainda mais. O processo pode, inclusive, agravar situações de seca que já estejam em andamento.
O que mudou nas últimas décadas, segundo a especialista, não é necessariamente esse mecanismo, mas a temperatura de base sobre a qual ele atua.
Com o planeta mais quente, um mesmo sistema atmosférico pode produzir temperaturas muito mais extremas do que produziria décadas atrás.
“As mudanças climáticas estão avançando e o mundo está mais quente. Isso reflete na intensidade das ondas e podemos ver um cenário ainda mais forte este ano”, explica Mabel.
2023 e 2024 bateram recorde
O período entre agosto e dezembro de 2023 e 2024 concentrou o maior número de ondas de calor da série histórica analisada: foram nove episódios, o maior registro desde 1979.
O número representa mais que o dobro da média brasileira, de aproximadamente quatro ondas de calor.
O período também ficou marcado por temperaturas recordes em diversas partes do planeta. No Brasil, mais de 6 milhões de pessoas enfrentaram pelo menos 150 dias de calor extremo em 2024.
Setembro já deve começar quente
Ainda não é possível determinar exatamente quando ocorrerá a primeira onda de calor desta nova sequência. Os sinais, porém, já aparecem nas previsões meteorológicas.
Para setembro, os mapas indicam temperaturas acima da média em grande parte do Brasil, com algumas áreas podendo registrar marcas de até 3°C acima do normal.
O meteorologista e pesquisador em Ciências Meteorológicas Marcelo Seluchi explica que os primeiros sinais da influência do El Niño devem começar a ser sentidos justamente neste período.
A expectativa é de calor intenso no Centro-Sul do país, enquanto o Sul pode registrar episódios de chuva mais intensa.
“A temperatura dos oceanos está batendo recordes e as previsões indicam que vão continuar aumentando. Isso nos mostra que podemos esperar um calor intenso já a partir de setembro, com ondas de calor acontecendo com maior frequência, intensidade e duração”, afirma Seluchi.
Se as projeções se confirmarem, os próximos meses podem colocar o Brasil diante de uma combinação de calor mais intenso, episódios prolongados e ondas de calor atingindo áreas cada vez maiores do território.
Foto: ERWIN SCHERIAU / AFP

