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Fé e memória: Salvador renova devoção ao seu padroeiro São Francisco Xavier

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Uma manhã marcada pela fé, pela emoção e pela retomada de uma tradição histórica. Em celebração aos 340 anos de consagração de São Francisco Xavier como padroeiro da capital baiana, a Catedral Basílica do Santíssimo Salvador, no Terreiro de Jesus, reuniu, no domingo (10), fiéis, turistas, religiosos e devotos para uma Missa Solene presidida pelo Arcebispo de São Salvador da Bahia, Primaz do Brasil, Cardeal Dom Sergio da Rocha. Após a celebração, uma procissão percorreu o largo do Centro Histórico com o busto-relicário do santo, enquanto orações, cânticos e lágrimas se misturavam ao som dos sinos e aos passos dos fiéis.

A cerimônia deste ano carregou um simbolismo ainda mais forte: a renovação oficial dos votos dedicados ao padroeiro da cidade, uma tradição histórica que havia sido interrompida durante anos. Em meio ao brilho das velas, aos cânticos litúrgicos e às mãos erguidas em oração, Salvador reviveu parte de sua própria memória religiosa.

Dentro da Catedral, a emoção era visível. Durante os louvores, alguns fiéis permaneceram ajoelhados, em silêncio e em pranto. Outros levantavam as mãos em sinal de entrega e devoção. Jovens, idosos, crianças e famílias inteiras acompanhavam atentos cada palavra da celebração. Muitos choravam discretamente enquanto o cardeal falava sobre gratidão, proteção e esperança. Turistas que passavam pelo Centro Histórico também acabaram sendo envolvidos pela atmosfera de fé que tomou conta do Terreiro de Jesus.

“Vais rezar com muito carinho, gratidão pelas nossas mães”, disse Dom Sergio da Rocha durante a coletiva concedida após a missa, em referência também ao Dia das Mães celebrado neste domingo. “Que nas nossas famílias esse amor pelas mães seja manifestado através da oração, do abraço atencioso, trazendo alegria para as nossas famílias, para as nossas mães e para a nossa cidade”, afirma.

 

 

A história do santo que se tornou padroeiro de Salvador

Muito antes de ter o nome associado à proteção de Salvador, Francisco Xavier já era reconhecido como um dos maiores missionários da Igreja Católica. Nascido em 1506, no Reino de Navarra, região que atualmente pertence à Espanha, ele estudou na Universidade de Paris, onde conheceu Inácio de Loyola. Ao lado dele e de outros companheiros, fundou a Companhia de Jesus, os jesuítas, em 1534.

Movido pela missão de evangelizar, percorreu regiões da Índia, Japão e outros territórios do Oriente, enfrentando viagens perigosas e longos períodos longe da Europa. Sua atuação missionária o transformou em uma das figuras mais importantes da expansão do catolicismo no mundo.

Em Salvador, no entanto, a relação com o santo nasce de um episódio dramático da história da cidade. Durante uma epidemia de febre amarela que atingiu Salvador e outras cidades do Nordeste no século XVII, São Francisco Xavier foi invocado como intercessor diante do sofrimento e das mortes provocadas pela doença. Após a redução da epidemia, autoridades e religiosos atribuíram ao santo a graça alcançada.

“Na época, ele foi invocado como intercessor para aquele momento tão difícil que aqui se vivia. Alcançou-se a graça de serem libertados daquele momento

tão complicado, tão triste”, explica Dom Sergio. “Foi decretado como padroeiro da cidade, e o próprio papa da época confirmou o voto da Câmara Municipal daquele tempo, voto que se renova a cada ano.”

Foi assim que, há 340 anos, São Francisco Xavier passou oficialmente a ser considerado padroeiro de Salvador.

 

 

Entre o esquecimento e a retomada da devoção

Apesar do título histórico, a devoção ao santo nunca alcançou em Salvador a mesma popularidade de figuras como o Senhor do Bonfim ou Nossa Senhora da Conceição da Praia. A própria Igreja reconhece isso.

“Alguns santos acabam sendo mais venerados por vários motivos”, afirma o Arcebispo. “Mas nós temos lugar no coração do povo para todos.”

Para muitos devotos, parte desse afastamento histórico aconteceu após a expulsão dos jesuítas do Brasil, o que teria enfraquecido a propagação da devoção a São Francisco Xavier na capital baiana.

“Teve um período em que realmente a devoção ficou um pouco obscura, um pouco oculta”, conta Júlio Paulino, membro da Associação de Devotos de São Francisco Xavier.

 

 

Fé que atravessa cidades e fronteiras

Entre os presentes na missa estava o turista Jair, de Fortaleza, que visitava Salvador e acabou surpreendido pela celebração histórica. Frequentador de igrejas do Pelourinho, ele contou que não sabia da comemoração dos 340 anos da consagração do santo.

“Pra mim foi um privilégio descobrir que estava acontecendo essa celebração”, relata.

Jair se alegrou ao reencontrar Dom Sergio da Rocha, a quem já conhecia da época em que o cardeal atuava em Fortaleza. Para ele, Salvador possui uma força religiosa única.

“Aqui tem muito do misticismo religioso e isso valoriza muito a cultura da cidade”, afirma. “É uma energia positiva estar em Salvador.”

Enquanto a missa seguia, o fluxo de pessoas aumentava na Catedral. Crianças acompanhavam os pais segurando pequenos terços. Idosos permaneciam sentados em silêncio contemplativo. Jovens registravam o momento com celulares, mas também se ajoelhavam durante as orações mais intensas. Em muitos rostos, a emoção parecia surgir não apenas da fé, mas também da sensação de pertencimento a uma tradição antiga que resistiu ao tempo.

 

 

Procissão pelas ruas do Centro Histórico

Após a missa, o busto-relicário de São Francisco Xavier foi levado em procissão pelo largo do Terreiro de Jesus. O cortejo avançou lentamente entre cânticos, orações e aplausos dos fiéis. Muitos acompanhavam de perto tentando tocar a imagem do santo. Outros apenas observavam em silêncio, alguns ainda chorando.

Sob o céu do Centro Histórico, Salvador renovava não apenas um voto religioso, mas também uma parte importante de sua identidade.

Mais do que uma celebração litúrgica, o domingo foi marcado pela tentativa de reaproximar a cidade de um personagem histórico que atravessou séculos. Um santo missionário que saiu da Europa para evangelizar o Oriente e que, de alguma forma, também permanece ligado à memória, à fé e à história da primeira capital do Brasil.

 

Fonte: Tribuna da Bahia

Foto: Romildo de Jesus/Tribuna da Bahia

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