Geral

Óculos inteligentes e IA são usados para treinar trabalhadores de fábricas de chocolate na Bahia

Barcaca-com-logo-do-MTILab
Publicado em 08/09/2026 às 10:30

Tecnologia desenvolvida por pesquisadores da UESC cria fábrica virtual para capacitação profissional e permite simular operações sem os riscos de um ambiente real

Treinar trabalhadores para atuar em uma fábrica de chocolate sem precisar colocá-los diante de máquinas e equipamentos reais já é possível graças a uma tecnologia desenvolvida na Bahia. Pesquisadores da Universidade Estadual de Santa Cruz (UESC), em Ilhéus, criaram uma experiência que combina óculos inteligentes, realidade virtual e inteligência artificial para reproduzir as diferentes etapas da produção de chocolate.

A ferramenta permite que o trabalhador entre virtualmente em uma fábrica, percorra os ambientes, manipule equipamentos e aprenda os procedimentos de operação à distância. Tudo isso sem ficar exposto aos riscos de uma atividade real.

A tecnologia reproduz desde o processamento das amêndoas de cacau até as etapas de fabricação do chocolate. Durante a experiência, o usuário também conta com o “Guia Cacau”, um instrutor virtual baseado em inteligência artificial que interage com o trabalhador durante o treinamento.

“Quando a pessoa fala algo, o sistema primeiro transforma a fala em texto, depois interpreta o que foi dito e responde por voz. Esses três passos acontecem em poucos segundos, dando a impressão de um diálogo natural”, explica Amanda Oliveira, doutoranda em Modelagem Computacional pela UESC, em entrevista ao Valor Econômico.

 

IA acompanha o treinamento em tempo real

A tecnologia foi apresentada por Oliveira e sua equipe durante a Expocacau 2026, feira dedicada ao setor realizada em Ilhéus no fim de agosto.

Um dos diferenciais do “Guia Cacau” é que ele não funciona apenas como um chatbot convencional. A inteligência artificial consegue acompanhar o que está acontecendo dentro do ambiente de realidade virtual e adaptar as orientações de acordo com o estágio do treinamento.

O sistema identifica, por exemplo, se o trabalhador já passou por determinada área da fábrica, se utilizou o equipamento correto e em qual etapa da atividade está.

Com isso, a ferramenta evita fornecer instruções fora de contexto ou validar procedimentos que não foram realizados pelo usuário durante a simulação.

 

Treinamento sem parar a produção

Além de ampliar as possibilidades de capacitação, a solução pode ajudar as empresas a reduzir o tempo gasto por funcionários experientes no treinamento de novos trabalhadores.

Em uma operação tradicional, profissionais mais experientes precisam interromper suas atividades para acompanhar quem está começando. Com a fábrica virtual, parte desse processo pode ser realizada de forma autônoma.

“O gestor não precisa parar seu melhor operador para treinar pessoas. Isso gasta tempo e reduz a chance de prejuízos com danos em equipamentos”, afirma a pesquisadora.

A simulação também permite avaliar o desempenho e a aptidão do trabalhador antes que ele seja colocado em uma operação real. Procedimentos e possíveis situações de risco podem ser reproduzidos no ambiente virtual, permitindo que o usuário aprenda com eventuais erros sem as consequências que eles poderiam provocar em uma fábrica.

 

Realidade virtual também chega à cabruca

O trabalho desenvolvido pela UESC não se limita ao ambiente industrial. Os pesquisadores também criaram uma experiência de realidade virtual voltada para a cabruca, sistema tradicional de cultivo de cacau em que os cacaueiros são plantados sob a sombra de árvores da Mata Atlântica.

A proposta é utilizar a tecnologia para aproximar o usuário de diferentes etapas e características da cadeia produtiva do cacau por meio de experiências imersivas.

O projeto recebeu recursos do Edital Incite, da Fundação de Amparo à Pesquisa da Bahia (Fapesb), utilizados na aquisição dos equipamentos e no desenvolvimento da tecnologia. A pesquisa também conta atualmente com uma bolsa da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes).

 

Pesquisadores procuram indústrias para testar a solução

A próxima etapa é aproximar a tecnologia do mercado. A equipe da UESC busca indústrias de chocolate interessadas em testar e adotar a ferramenta.

Inicialmente, o ambiente virtual foi desenvolvido com base em fábricas artesanais de chocolate. Agora, os pesquisadores trabalham na criação de uma estrutura que reproduza uma indústria de médio porte.

Para isso, estão sendo utilizados como referência os manuais dos equipamentos e maquinários empregados nesse tipo de operação.

A expectativa é que a tecnologia possa ser adaptada às necessidades de diferentes empresas e utilizada tanto na formação de novos trabalhadores quanto na avaliação de procedimentos e competências antes da atuação em ambientes industriais.

 

Tecnologia como desafio para a cadeia do cacau

A iniciativa também dialoga com um dos principais desafios da cadeia produtiva do cacau no Brasil: a necessidade de ampliar o acesso à tecnologia.

Enquanto culturas como a soja e o milho contam com elevado nível de mecanização e tecnificação em diversas regiões produtoras, o cacau brasileiro ainda é produzido majoritariamente por pequenos agricultores.

Segundo dados do IBGE, o país possui cerca de 93 mil cacauicultores, em sua maioria agricultores familiares.

Nesse cenário, a aposta dos pesquisadores da UESC é levar ferramentas de realidade virtual e inteligência artificial para uma cadeia que ainda tem espaço para avançar na adoção de novas tecnologias — do campo à indústria.

Mais do que reproduzir uma fábrica em ambiente virtual, a proposta é usar a tecnologia para preparar pessoas, reduzir riscos e aproximar inovação e conhecimento de uma das principais cadeias agrícolas da Bahia.

Publicidade

 

Foto: MTILAB/Uesc

Publicidade

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *