Profissionais dedicam tempo e conhecimento ao atendimento gratuito em situações de desastre, prevenção ao suicídio e apoio à saúde mental
Terremotos, guerras, enchentes e outras tragédias deixam marcas que nem sempre podem ser vistas. Para além da destruição, ficam o medo, a angústia e memórias difíceis de superar. É nesse território de dor que profissionais de saúde têm encontrado uma forma de fazer a diferença: o voluntariado.
A psicóloga Esly Carvalho, que atua em Brasília e tem 45 anos de experiência profissional, decidiu colocar seu conhecimento no atendimento a pessoas traumatizadas a serviço de causas humanitárias. Ela se dedica a treinar equipes para lidar com pacientes submetidos a situações extremas e com sintomas de estresse pós-traumático.
A iniciativa ganhou força após desastres em diferentes países. Para Esly, é possível oferecer atendimento eficaz mesmo em cenários de emergência.
“É possível a gente fazer intervenções em grupos e situações de desastres de forma eficaz”, afirma.
A psicóloga trabalha com o EMDR, abordagem psicoterapêutica utilizada no tratamento de traumas e que ajuda a pessoa a processar memórias dolorosas.
Ajuda que atravessa fronteiras
Na Venezuela, após o terremoto de junho, Esly desenvolveu um programa de intervenção voltado para profissionais que atuam com pessoas afetadas pelo desastre.
“Nós já formamos mais de 100 colegas nesse manejo, de forma que possam implementar o trabalho. E eles atenderam mais de 500 pessoas”, conta.
O trabalho continua de forma remota. Todas as quintas-feiras, a psicóloga participa dos atendimentos online, enquanto a equipe formada na Venezuela atua diretamente com a população.
“Para quem vier, nós fazemos esses exercícios online gratuitamente”, diz.
Entre as profissionais que receberam orientação desde o dia seguinte ao terremoto está a psicoterapeuta Deglya Flores, de 59 anos. Moradora de Caracas, ela conta que ficou profundamente impactada pelas cenas vistas nas cidades mais atingidas.
“Contactaram a mim e outras pessoas para nos oferecer ajuda”, recorda.
O contato ocorreu por videoconferência. Segundo Deglya, o apoio chegou em um momento em que muitos profissionais também estavam emocionalmente abalados.
“O resultado foi maravilhoso porque muitos de nós estávamos altamente perturbados. Eu estava desesperada e angustiada pela magnitude do evento, da dor e da angústia nas pessoas.”
De acordo com a psicoterapeuta, a Venezuela conta com apenas 17 terapeutas especializados no tratamento de traumas.
O grupo também passou a atender, a distância, pessoas afetadas pelo terremoto na Colômbia. A rede reúne profissionais de saúde mental e voluntários dispostos a fazer escuta e acolhimento, inclusive em acampamentos de La Guaira, região mais atingida pelo desastre.
Para Esly, compartilhar conhecimento é uma das principais recompensas do trabalho voluntário.
“O trabalho de voluntariado preenche um lugar muito especial no meu coração.”
De seis amigos a 7 mil voluntários
Em São Paulo, outra iniciativa nasceu de uma experiência pessoal. Em 2017, seis amigos que haviam passado por crises de depressão decidiram oferecer ajuda a pessoas que enfrentavam momentos difíceis.
A estratégia era simples: eles escreviam mensagens e as amarravam em viadutos e pontes no centro da cidade. No papel, deixavam também um número de telefone para quem precisasse conversar.
“Colocávamos nosso número de telefone e as pessoas entravam em contato”, lembra Felipe Santos, hoje coordenador nacional do Projeto Help.
O grupo cresceu. Os seis amigos se transformaram em uma rede de cerca de 7 mil voluntários espalhados por todas as unidades federativas do país. O perfil do projeto no Instagram soma 389 mil seguidores.
Hoje, profissionais de saúde mental e voluntários de outras áreas realizam palestras em unidades de ensino e fazem escutas em espaços públicos, como rodoviárias, parques e estações de transporte.
As ações são conhecidas como “cantinho do desabafo”. Nesta semana, por exemplo, voluntários estiveram na estação de trem de Francisco Morato, em São Paulo.
“Temos uma atenção especial com os mais jovens, que têm adoecido mais com ansiedade e depressão”, afirma Felipe.
O atendimento também ocorre de forma remota, com o primeiro contato pelo WhatsApp.
Segundo ele, jovens têm procurado o projeto com frequência e relatado problemas emocionais relacionados a diferentes situações, entre elas a dependência de tecnologias e as apostas online.
Prevenção começa pela escuta
Em Brasília, o grupo é coordenado pelo militar da Marinha Thiago Domingos, de 31 anos. Ele se tornou voluntário depois de tomar conhecimento de casos de suicídio entre jovens nas Forças Armadas.
“O nosso projeto trabalha com prevenção e tenta ajudar as pessoas que não têm recursos para consultas com psicólogos”, explica.
Além das atividades do “cantinho do desabafo”, Thiago participa de palestras em escolas. Nessas ocasiões, também ouve relatos de bullying e de outros problemas emocionais enfrentados pelos estudantes.
“Aqui em Brasília, atendemos cerca de 5 mil pessoas nos últimos anos.”
Na capital federal, 15 psicólogos voluntários fazem atendimentos regularmente.
Entre eles está Juliana Cei, de 38 anos. Ela trabalha na área organizacional de uma empresa e aproveita as horas livres para atender pessoas voluntariamente em espaços públicos.
A experiência, diz ela, trouxe um novo significado para a profissão.
“A gente está vivendo uma crise de saúde mental generalizada. Há uma epidemia de solidão e as pessoas têm tido poucas oportunidades de interagir, de formar laços, de ter uma rede de apoio”, avalia.
Juliana conta que, ao entrar no projeto, percebeu também como muitos jovens têm pouco tempo de convivência de qualidade com os familiares.
“Tudo isso tornou o jovem muito mais suscetível a crises.”
Uma sementinha
Ao longo dos atendimentos, Juliana também percebeu uma procura significativa de mulheres em busca de ajuda.
“Eu conversei com mulheres que contaram situações bem sensíveis. A gente ouve com muita atenção.”
Entre os encontros que guarda com mais carinho está o de uma adolescente que, depois de conversar com os voluntários, quis saber mais sobre a própria profissão de psicologia.
Para Juliana, aquele momento mostrou que uma escuta pode produzir efeitos que vão muito além do atendimento.
“A gente acaba plantando uma sementinha naquela pessoa que, às vezes, está sofrendo. Mas ela não quer só sair do sofrimento. Ainda pensa em ser voluntária um dia.”
Um espaço seguro para pessoas trans
O psicólogo brasiliense Lucas Hedler, de 45 anos, também encontrou no voluntariado uma maneira de transformar sua própria experiência em acolhimento para outras pessoas.
Homem trans, ele decidiu criar um grupo de apoio voltado a pessoas trans, com o objetivo de oferecer um espaço seguro para falar sobre inseguranças, compartilhar histórias e buscar apoio psicológico.
“Eu resolvi fazer um grupo de apoio para a gente poder falar sobre as nossas inseguranças. Poder compartilhar nossa história de forma segura e que também tenha um resultado psicológico”, afirma.
Lucas chama atenção para as dificuldades enfrentadas pela população LGBTQIA+ e afirma que, em alguns casos, o ambiente familiar pode ser mais inseguro do que a própria rua.
Ele também tem interesse em ampliar o trabalho com pessoas que passaram por situações traumáticas.
“A pandemia foi muito difícil para as pessoas trans. Muitas sofreram agressões, foram expulsas de casa e não tiveram para onde ir.”
O psicólogo pretende criar novos projetos de atendimento voluntário para esse público. Paralelamente, está se especializando em autismo.
“Eu estou me especializando em autismo também porque a incidência desse transtorno em pessoas trans é alta.”
Onde buscar ajuda gratuita
Quem precisa de acolhimento ou orientação em saúde mental pode procurar serviços gratuitos, como:
- CVV (Centro de Valorização da Vida): telefone 188.
- Rede de Atenção Psicossocial (Raps) do SUS: serviços públicos de atendimento em saúde mental.
- Alcoólicos Anônimos (AA): grupos de apoio para pessoas que enfrentam problemas relacionados ao consumo de álcool.
Foto: © Projeto Help/Divulgação

