Decidir ser doador de órgãos é uma atitude importante, porém, existe um passo fundamental para que esse desejo possa ser realizado, conversar com a família.
No Brasil, a retirada de órgãos após a morte depende da autorização dos familiares. Por isso, deixar essa vontade conhecida pode fazer toda a diferença no momento em que eles forem consultados pela equipe de saúde.
Esse alerta ganha ainda mais importância diante do número de pessoas que aguardam por um transplante. Os dados do Registro Brasileiro de Transplantes, da Associação Brasileira de Transplante de Órgãos (ABTO), mostram que, em dezembro de 2025, 38.925 pacientes esperavam por um transplante de rim no Brasil, sendo essa a maior demanda entre os órgãos sólidos.
No mesmo ano, foram realizados 6.697 transplantes renais no país, um número recorde e 5,9% maior do que o registrado em 2024.
Para o urologista Nilo Jorge Leão, coordenador do Serviço de Urologia e do Programa de Cirurgia Robótica do Hospital Mater Dei Salvador (HMDS), é importante considerar também o impacto da doença na rotina e na qualidade de vida de quem aguarda pelo procedimento.
“O paciente renal crônico enfrenta anos de sofrimento até chegar ao transplante”, afirma.
Segundo ele, os avanços nas técnicas cirúrgicas buscam diminuir os impactos do procedimento e oferecer uma experiência mais humana ao paciente transplantado.

Na Bahia, 2.267 pessoas aguardavam por um rim em 1º de junho de 2026, segundo a Secretaria da Saúde do Estado (Sesab). Na mesma data, 71 pessoas esperavam por um fígado e dez por um coração. Em 2025, foram realizados 335 transplantes renais no estado, de acordo com a ABTO.
Família tem papel decisivo
A recusa familiar ainda é um dos principais obstáculos para a realização de transplantes. Em 2025, 45% das entrevistas com familiares de potenciais doadores no Brasil terminaram em negativa.
Na Bahia, o Plano Estadual de Doação e Transplante 2026-2029 aponta que esse índice chegou a 61% em 2024. Entre os motivos identificados estão a falta de informação sobre o processo e questões culturais e religiosas.
Após o diagnóstico de morte encefálica, os familiares são consultados sobre a possibilidade da doação. Quando a família já conhece a vontade da pessoa, a decisão pode ser tomada com mais informação, mesmo em um momento marcado pelo luto.
O assunto ganha ainda mais visibilidade durante o Setembro Verde, mas a orientação é que essa conversa aconteça durante todo o ano.
Entenda como funciona
- A pessoa manifesta em vida o desejo de ser doadora;
- A família precisa conhecer essa vontade;
- Em caso de morte encefálica, a equipe de saúde conversa com os familiares;
- A retirada dos órgãos só ocorre após a autorização da família;
- Os órgãos e tecidos doados são destinados aos pacientes que aguardam na fila do Sistema Nacional de Transplantes;
- Um único doador pode beneficiar diferentes pessoas.
Transplante renal
O transplante renal é indicado para pacientes que apresentam insuficiência renal irreversível e pode representar uma melhora importante na qualidade de vida de quem depende de tratamentos como a hemodiálise.
O rim pode ser doado tanto por uma pessoa viva, seguindo os critérios médicos e legais, quanto por um doador falecido.
Em 2026, o Hospital Mater Dei Salvador foi habilitado pelo Ministério da Saúde para realizar a retirada e o transplante renal, passando a integrar a rede de unidades aptas a realizar esse tipo de procedimento de alta complexidade na Bahia.
O programa é conduzido por uma equipe especializada, liderada pelo urologista Nilo Jorge Leão.
Uma conversa que pode salvar vidas
A existência de hospitais habilitados, equipes especializadas e tecnologias avançadas é importante para a realização dos transplantes, mas um dos principais desafios continua sendo a necessidade de doadores.
Por isso, quem deseja doar órgãos deve conversar com a família e deixar essa decisão clara. Uma conversa simples, feita ainda em vida, pode ser fundamental para que a vontade seja respeitada e se transforme em uma nova oportunidade para quem espera por um transplante.

