A obesidade atingiu 25,7% da população brasileira em 2024, mais que o dobro do índice registrado em 2006, quando a taxa era de 11,8%. Os dados são da pesquisa Vigitel 2025, divulgada pelo Ministério da Saúde, e mostram ainda que o percentual de pessoas com excesso de peso passou de 42,6% para 62,6% no mesmo período.
O cenário reforça o alerta da Organização Mundial da Saúde (OMS), que classifica a obesidade como um dos principais problemas de saúde pública da atualidade. Na Bahia, o avanço da obesidade também preocupa especialistas e profissionais da rede pública de saúde.
O médico João Zallio Coelho afirma que a mudança no perfil alimentar da população nas últimas décadas está entre os principais fatores associados ao crescimento da doença. Segundo ele, alimentos ultraprocessados e de baixo valor nutricional se tornaram mais acessíveis, enquanto a prática de atividade física diminuiu.
“Com menos de R$ 5, ainda é possível comprar um refrigerante de 2 litros cheio de açúcar, um pacote de biscoito recheado e duas unidades de macarrão instantâneo. Isso é uma bomba calórica”, afirmou o médico. Ele também aponta o aumento do tempo de exposição às telas e a redução da movimentação diária como fatores que contribuem para o avanço da obesidade.
De acordo com o especialista, a obesidade deve ser tratada como uma doença crônica e inflamatória, associada a complicações metabólicas e à redução da qualidade de vida. “Obeso vive menos e adoece mais”, declarou, citando que a hipertensão arterial, diabetes e doenças cardiovasculares estão entre os principais problemas relacionados ao excesso de peso.
O Ministério da Saúde informou que, nos últimos três anos, houve aumento de 58% no acompanhamento de pessoas com obesidade na Atenção Primária à Saúde, passando de 6,2 milhões de atendimentos em 2022 para 9,7 milhões em 2025. Nesta quarta-feira (29), o ministro Alexandre Padilha anunciou investimento anual de R$ 51 milhões para habilitação de 582 unidades do programa Academia da Saúde em 451 municípios do país.
Os espaços públicos oferecem atividades físicas gratuitas e integram a estratégia Viva Mais Brasil, voltada à promoção da saúde e prevenção de doenças crônicas. Segundo o ministério, as atividades físicas realizadas nas Academias da Saúde cresceram 95,1% desde 2023. O governo também destaca a ampliação das equipes de Saúde da Família e a implementação da Linha de Cuidado do Sobrepeso e Obesidade no Sistema Único de Saúde (SUS).
Zallio avalia que houve ampliação do acesso à saúde pública nos últimos anos, mas afirma que ainda existem dificuldades no atendimento especializado para obesidade dentro do SUS. “São poucos os serviços no SUS que atuam com robustez no tratamento da obesidade. Não há medicações oportunas disponíveis, faltam recursos”, disse.
Entre os tratamentos disponíveis atualmente estão mudança alimentar, prática de atividade física, acompanhamento multiprofissional, uso de medicamentos e cirurgia bariátrica, indicada em casos específicos. O médico defende que pacientes com índice de massa corporal acima de 30 já devem iniciar tratamento medicamentoso, conforme protocolos clínicos.
As chamadas “canetas emagrecedoras” também ganharam espaço nos últimos anos e, segundo o especialista, representam um avanço importante no tratamento da obesidade. Apesar disso, Zallio alerta: “são medicações revolucionárias, mas precisam ser prescritas e acompanhadas por profissionais de saúde”.
“Assim que os sistemas públicos de saúde incorporarem tais terapêuticas, junto com uma melhor qualificação dos profissionais de saúde, teremos uma redução significativa do número de doenças crônicas, principalmente, as que mais levam a infarto e AVCs. Doenças cardiovasculares são as que mais matam no mundo e as que geram maiores custos para o SUS”, completou o médico. Para ele, é preciso “lutar” para que este tipo de medicamento esteja acessível, em breve, para todos, pois ainda são medicações com custo muito elevado para maior parte da população.
Fonte: Tribuna da Bahia
Foto: Getty Images

