A reconstrução mamária é um direito garantido por lei, mas especialista reforça que a decisão deve partir da paciente
A evolução das leis sobre reconstrução mamária no Brasil transformou a forma como o tratamento do câncer de mama vem sendo compreendido. Atualmente, a retirada do tumor deixou de ser vista como o único objetivo do cuidado: a reabilitação, a imagem corporal, a autoestima e a retomada da qualidade de vida também passaram a fazer parte desse processo.
A doença, que atingiu cerca de 73.610 mulheres por ano entre 2023 e 2025, segundo estimativas do Instituto Nacional de Câncer (INCA), vem provocando impactos que vão além da saúde física. Para muitas pacientes, especialmente aquelas que passam pela mastectomia, o tratamento envolve desafios emocionais e psicossociais relacionados à relação com o próprio corpo.
De acordo com a médica mastologista Larissa Bitencourt, a retirada da mama representa uma mudança que pode afetar diferentes aspectos da vida da mulher.
“A mama pode ter significados muito particulares. Para algumas mulheres, está ligada à feminilidade, à sexualidade, à autoestima, à intimidade e até à forma como ela se reconhece diante do espelho. Por isso, a reconstrução mamária não deve ser vista como um detalhe estético do tratamento”, explica.
Segundo a especialista, o procedimento pode contribuir para que algumas pacientes possam retomar as atividades do cotidiano com mais segurança, conforto e bem-estar após a cirurgia.
Um estudo publicado na revista Scientific Reports, em 2025, apontou melhores resultados relacionados à qualidade de vida e adaptação psicossocial em pacientes que realizaram reconstrução mamária quando comparadas àquelas submetidas apenas à mastectomia. Pesquisas também indicam que autoestima e imagem corporal possuem relação direta com a qualidade de vida após o tratamento do câncer de mama.
Apesar dos benefícios, Larissa ressalta que a reconstrução deve ser apresentada como uma opção, e não como uma obrigação. Algumas mulheres escolhem realizar o procedimento, enquanto outras optam por não reconstruir e seguir com o tórax plano.
“O papel do médico é apresentar todas as possibilidades com clareza: explicar direitos, benefícios, limitações, riscos, tempo de recuperação, impacto da radioterapia, técnicas disponíveis e também a possibilidade de não reconstrução. A melhor decisão é aquela que faz sentido para a mulher, considerando sua história, seus valores e o momento que ela está vivendo”, afirma.
Novas técnicas ampliam possibilidades no tratamento
A cirurgia oncoplástica trouxe avanços importantes ao unir técnicas da cirurgia oncológica e da cirurgia plástica. O método permite retirar o tumor com segurança e, ao mesmo tempo, reorganizar o tecido mamário, corrigir alterações e planejar procedimentos de simetrização quando necessário.
Essa técnica também ampliou as possibilidades de cirurgias conservadoras para pacientes que, no passado, poderiam ser encaminhadas diretamente para a mastectomia devido ao tamanho ou localização do tumor.
Aos 42 anos, Flávia Oliveira descobriu o câncer de mama em 2025 após perceber uma retração na pele da região. Ela recebeu o diagnóstico com metástase para a axila e passou por tratamento com quimioterapia antes da cirurgia. Depois, realizou a mastectomia com reconstrução imediata.
“A minha vaidade já estava afetada por causa do câncer. No tratamento, perdi o cabelo, minhas unhas ficaram roxas e minha pele mudou. Além de tudo isso, eu não me imaginava sem a mama. Pesquisei sobre as possibilidades e optei pela reconstrução imediata”, conta.
A reconstrução imediata, porém, não significa que a decisão deve ser tomada com pressa. Em alguns casos, ela é indicada logo após a retirada da mama. Em outros, fatores como necessidade de radioterapia, características do tumor e condições clínicas da paciente podem definir outro momento para o procedimento.
“Reconstrução mamária é sobre devolver possibilidades. Para algumas mulheres, isso significa reconstruir a mama. Para outras, significa escolher não reconstruir. O mais importante é que nenhuma paciente seja pressionada a seguir um único padrão de corpo ou feminilidade. O papel da medicina é acolher escolhas diferentes e oferecer cuidado, respeito e qualidade técnica em todos os caminhos”, conclui Larissa Bitencourt.
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