Geral

Da dor à missão de cuidar: Quando a perda de um filho se tranforma em trajetória de dedicação à saúde pública

Publicado em 25/09/2026 às 13:38

Há histórias que mudam o rumo de uma vida. Para Jamile Oliveira, essa mudança aconteceu diante de uma das experiências mais dolorosas que uma mãe pode enfrentar: a perda de um filho.

O bebê tinha apenas seis meses quando morreu enquanto aguardava atendimento na fila da regulação. A experiência deixou uma marca profunda e fez com que Jamile, que havia se formado em Publicidade, tomasse uma decisão que mudaria completamente sua trajetória profissional: entrar para a área da saúde.

Hoje, enfermeira sanitarista, mestre em Saúde pela Universidade Federal da Bahia (UFBA) e com mais de 17 anos de experiência em Saúde Pública, Jamile construiu sua caminhada profissional justamente dentro do campo que um dia passou a conhecer também a partir da dor.

Ao longo dessa trajetória, o cuidado deixou de ser apenas uma profissão e passou a representar uma forma de transformar experiências em ação. Entre os temas que passaram a fazer parte de sua atuação está o enfrentamento à violência contra a mulher e a defesa de uma rede de saúde capaz de acolher quem chega em situação de vulnerabilidade.

 

 

Em uma conversa com o Lapa News, Jamile fala sobre a infância, a formação em Publicidade, a perda do filho, a mudança de profissão, os anos dedicados à saúde pública e o ativismo em defesa das mulheres.


Lapa News — Antes da saúde, você tinha uma formação em Publicidade. Como aconteceu essa mudança de trajetória?

Jamile Oliveira — Eu me formei em Publicidade e imaginava que minha vida profissional seguiria outro caminho. Mas a vida acabou me colocando diante de uma experiência que transformou completamente a minha maneira de enxergar o mundo.

Perder um filho é uma dor difícil de explicar. Meu filho tinha apenas seis meses e morreu enquanto aguardava atendimento na fila da regulação.

A partir daquela experiência, comecei a me perguntar muito sobre o funcionamento da saúde, sobre as pessoas que estão esperando por atendimento e sobre o que acontece quando alguém precisa de uma resposta e ela não chega a tempo.

Foi nesse momento que decidi entrar para a área da saúde.


Lapa News — Você consegue separar a profissional da mãe quando fala sobre essa história?

Jamile Oliveira — É muito difícil. Antes de ser uma profissional da saúde, eu sou mãe. E aquela experiência não desaparece.

Com o tempo, aprendi a transformar a dor em uma forma de compreender melhor determinadas situações. Não significa esquecer ou deixar de sentir. Significa encontrar uma maneira de continuar.

A minha história passou a me fazer olhar para cada pessoa que chega a um serviço de saúde de uma maneira diferente. Porque, por trás de cada prontuário, existe uma vida, uma família e uma história.


Lapa News — E como foi começar novamente em uma área completamente diferente?

Jamile Oliveira — Foi um desafio enorme. Eu estava vindo da Publicidade e entrando em um universo completamente diferente.

Mas havia uma motivação muito forte. Eu queria compreender a saúde por dentro. Queria entender como o sistema funcionava, como as decisões eram tomadas e, principalmente, como aquilo tudo chegava à vida das pessoas.

A partir daí, fui construindo minha trajetória, estudando, trabalhando e aprendendo diariamente.

 

 

 


Lapa News — Hoje você acumula mais de 17 anos de experiência em Saúde Pública. O que esses anos ensinaram?

Jamile Oliveira — Ensinaram que saúde não é apenas atendimento médico ou hospital. Saúde envolve prevenção, planejamento, gestão, acesso, informação, território e, acima de tudo, pessoas.

Também aprendi que muitas vezes quem está dentro do sistema enxerga problemas que quem está de fora não consegue perceber.

São mais de 17 anos de experiências, encontros e histórias que ajudaram a formar a profissional que sou hoje.


Lapa News — Você também se tornou enfermeira sanitarista e mestre em Saúde pela UFBA. O que a formação acadêmica acrescentou à sua caminhada?

Jamile Oliveira — A formação me deu ferramentas para compreender a saúde de uma maneira mais ampla.

Ser sanitarista é entender que cuidar também significa pensar políticas, planejamento, prevenção, organização dos serviços e acesso.

O mestrado também foi muito importante nesse processo porque ampliou minha capacidade de estudar os problemas e buscar caminhos possíveis para enfrentá-los.


Lapa News — Em que momento a defesa das mulheres passou a ocupar um espaço tão importante na sua trajetória?

Jamile Oliveira — A violência contra a mulher sempre me chamou atenção porque ela atravessa diferentes áreas da vida.

E a saúde muitas vezes é uma das portas pelas quais essa mulher chega quando precisa de ajuda.

Ela pode chegar com uma lesão, uma consequência psicológica, uma gravidez decorrente de violência ou simplesmente em busca de algum tipo de acolhimento.

Por isso, comecei a defender cada vez mais a necessidade de uma saúde preparada para reconhecer essas situações e acolher essas mulheres sem julgamento.


Lapa News — Qual é o papel dos profissionais de saúde diante de uma mulher vítima de violência?

Jamile Oliveira — Primeiro, ouvir.

Parece simples, mas não é. Muitas mulheres chegam sem conseguir contar o que aconteceu. Algumas têm medo, vergonha ou dependem emocionalmente e financeiramente do agressor.

O profissional precisa estar preparado para acolher, identificar sinais e orientar. E é fundamental que exista uma rede funcionando, porque a saúde sozinha não resolve esse problema.

É preciso integrar saúde, assistência social, segurança pública, Justiça e outros serviços de proteção.


Lapa News — Você acredita que sua experiência pessoal influenciou sua maneira de atuar profissionalmente?

Jamile Oliveira — Sem dúvida.

A gente não consegue separar completamente a pessoa que somos daquilo que fazemos. Minha história me tornou mais sensível a determinadas situações.

A perda do meu filho me mostrou, de uma maneira muito dolorosa, que o tempo e o acesso podem fazer toda a diferença na vida de uma pessoa.

Talvez por isso eu tenha desenvolvido uma preocupação tão grande com quem está esperando, com quem não consegue acesso e com quem muitas vezes não sabe nem a quem recorrer.

 

 

 


Lapa News — Depois de tudo o que viveu, o que significa cuidar para você?

Jamile Oliveira — Cuidar é olhar para o outro com humanidade.

É entender que uma pessoa não é apenas um diagnóstico, um número de cartão do SUS ou uma posição em uma fila.

É alguém que tem família, sonhos, medo, esperança e direito de ser tratado com dignidade.


Uma história que encontrou um novo caminho

A trajetória de Jamile Oliveira não começou na saúde. Começou na Publicidade e tomou outro rumo depois de uma experiência pessoal que modificou sua relação com o cuidado e com o serviço público.

A perda do filho, aos seis meses de vida, enquanto aguardava atendimento na regulação, tornou-se um marco em sua história. A partir dali, veio uma nova formação, uma nova profissão e mais de uma década e meia dedicada à Saúde Pública.

Hoje, como enfermeira sanitarista e mestre em Saúde pela UFBA, ela olha para essa trajetória a partir de uma perspectiva construída entre a experiência profissional e a vivência pessoal.

E é justamente nessa interseção que aparece o sentido que ela atribui ao cuidado: entender que, por trás de cada pessoa que procura o serviço de saúde, existe uma história que merece ser ouvida.

Publicidade

 

“Cuidar é olhar para o outro com humanidade.”

Publicidade

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *