Pesquisa acompanhou mais de 2 mil crianças e adolescentes no Brasil e aponta que maior risco poligênico pode estar associado à progressão mais rápida dos sintomas
Uma ferramenta de mapeamento genético pode ajudar a identificar, ainda durante a infância e a juventude, pessoas mais vulneráveis à depressão e indicar quais delas apresentam maior risco de desenvolver quadros mais graves. É o que aponta um estudo realizado com 2.163 crianças e jovens de 6 a 23 anos, acompanhados em São Paulo e Porto Alegre.
Publicado em julho na revista científica Biological Psychiatry, o trabalho analisou o chamado escore de risco poligênico, uma medida que reúne diferentes variações genéticas associadas à probabilidade de desenvolver transtorno depressivo maior (TDM).
Os pesquisadores observaram que participantes com pontuações genéticas mais elevadas apresentaram tendência a uma progressão mais rápida dos sintomas de depressão ao longo do desenvolvimento.
Relação com casos mais graves
O estudo também encontrou uma associação entre o maior risco genético e a autolesão não suicida entre jovens que já haviam sido diagnosticados com transtorno depressivo maior.
Esse comportamento envolve provocar intencionalmente lesões no próprio corpo, como cortes, pancadas, queimaduras ou arranhões, sem a intenção de provocar a própria morte.
Para o pesquisador Lucas Ito, da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), a associação encontrada pode ajudar a compreender melhor os mecanismos relacionados aos quadros mais graves de depressão.
“Nesse grupo de jovens, o risco poligênico para transtorno depressivo maior demonstrou relativa especificidade diagnóstica e identificou um curso de evolução mais grave da depressão”, afirmou Ito.
Os resultados, no entanto, não significam que um teste genético seja capaz de determinar sozinho quem terá depressão ou como a doença irá evoluir. Os próprios pesquisadores ressaltam que fatores genéticos interagem com aspectos ambientais e clínicos ao longo da vida.
Pesquisa amplia dados sobre a população brasileira
Um dos pontos de destaque do trabalho é a análise de uma população brasileira, marcada por alto grau de miscigenação.
Historicamente, grande parte das pesquisas sobre risco poligênico foi realizada com pessoas de ancestralidade predominantemente europeia. Essa concentração pode limitar a aplicação dessas ferramentas em populações com maior diversidade genética.
O estudo buscou justamente verificar se o risco genético associado à depressão está relacionado apenas ao surgimento do transtorno ou se também pode ajudar a explicar como os sintomas se modificam durante o crescimento.
“Nosso artigo buscou responder se o risco genético para depressão apenas define um ponto de partida para o surgimento do transtorno ou se também molda a forma como os sintomas evoluem à medida em que um jovem cresce”, explicou o psiquiatra Marcelo Branãs, da Unifesp, que participou da pesquisa.
Os voluntários foram acompanhados em três diferentes fases do desenvolvimento, como parte da Coorte Brasileira de Alto Risco para Condições Mentais (BHRC).
Genética é apenas uma parte da equação
Apesar dos resultados, os cientistas destacam que a genética não determina sozinha a trajetória de uma pessoa.
Para que ferramentas de previsão individual se tornem mais precisas no futuro, os pesquisadores apontam que os dados genéticos deverão ser analisados em conjunto com avaliações clínicas e fatores ambientais, considerando a realidade e o contexto de cada paciente.
O estudo teve orientação do professor Eurípedes Constantino Miguel, coordenador do Centro de Pesquisa e Inovação em Saúde Mental (CISM), coorientação do pesquisador Pedro Mario Pan e mentoria de Lois Choi-Kain, da Universidade de Harvard, nos Estados Unidos.
Onde buscar ajuda
Depressão e autolesão são condições que exigem atenção profissional. Pessoas que estejam enfrentando sofrimento emocional intenso, pensamentos suicidas ou outros sinais de crise devem procurar atendimento especializado.
O Centro de Valorização da Vida (CVV) oferece apoio emocional gratuito e sigiloso pelo telefone 188, 24 horas por dia, além de atendimento por meio de seu site oficial.
Buscar ajuda é um passo importante — e não é preciso esperar que o sofrimento chegue ao limite para procurar apoio.
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