Da rivalidade entre torcidas à polarização política, estamos perdendo a capacidade de discordar sem transformar quem pensa diferente em inimigo
Não há muito tempo, torcedores de times rivais iam juntos ao estádio, dividiam a mesma carona e sentavam-se na mesma arquibancada. Um ganhava, o outro perdia. Havia provocação e brincadeira, mas a amizade continuava. A camisa dividia a torcida, não destruía os vínculos.
Em algum momento, começamos a perder esse limite. A rivalidade deixou de ser parte da convivência e passou a ocupar o lugar da própria identidade. A camisa tornou-se mais importante do que a pessoa. Surgiram confrontos, emboscadas e mortes entre desconhecidos que se agridem apenas porque vestem cores diferentes.
No meio de uma briga entre torcidas, alguém pode estar espancando um amigo de infância, um primo ou um colega de trabalho sem saber. Ali, já não enxerga uma pessoa, apenas o símbolo do grupo adversário.
Essa anomalia ultrapassou os estádios e alcançou a política, as universidades, os ambientes de trabalho, as redes sociais e até as famílias. Já não basta discordar de uma ideia: é preciso desqualificar quem pensa diferente.
A psicologia social chama esse fenômeno de polarização afetiva. Ele ocorre quando deixamos de apenas divergir das ideias de um grupo e passamos a sentir aversão, desprezo e hostilidade por quem pertence a ele.
O mundo é dividido entre “nós” e “eles”. Tudo o que nosso grupo faz recebe uma justificativa. Tudo o que o outro faz é interpretado como ameaça. A razão deixa de avaliar os fatos e passa a trabalhar como advogada das nossas paixões.
É assim que a divergência se transforma em desumanização. Primeiro, o outro é rotulado. Depois, ridicularizado. Em seguida, perde o direito de falar. Por fim, sua agressão passa a ser tolerada ou comemorada.
A violência física é apenas o último estágio de uma violência moral iniciada quando deixamos de enxergar o ser humano por trás da camisa, do partido ou da opinião.
As redes sociais ampliam esse comportamento. A ponderação raramente viraliza. Indignação, insulto e humilhação geram curtidas, compartilhamentos e aplausos. Quanto mais agressiva a mensagem, maior a recompensa oferecida pelo próprio grupo.
A mesma intolerância aparece nas universidades, onde deveriam prevalecer o conhecimento, o pensamento crítico e a liberdade intelectual. Onde uma doutrina não pode ser contestada, já não existe educação: existe doutrinação.
Na política, fala-se cada vez menos sobre projetos nacionais, eficiência do Estado, educação, segurança, produtividade, emprego e bem-estar coletivo. A discussão pública transformou-se em uma batalha entre supostos representantes absolutos do bem e do mal.
Quando a política vira guerra, o objetivo deixa de ser construir uma sociedade melhor e passa a ser derrotar, humilhar ou destruir o outro lado. Isso é incompatível com a democracia.
Democracia não é ausência de conflitos. É a capacidade civilizatória de administrá-los sem eliminar o adversário. É disputar ideias reconhecendo que o outro continua sendo cidadão, titular dos mesmos direitos e protegido pela mesma Constituição.
A dignidade da pessoa humana não pode ser seletiva. Ou pertence a todos, inclusive a quem pensa diferente, ou deixou de ser dignidade e se transformou em privilégio.
E essa intolerância não decorre apenas da falta de escolaridade. Uma pessoa pode dominar uma ciência e não dominar a própria raiva. Pode conhecer a Constituição e desprezar a dignidade humana. Pode defender a democracia nos discursos e tentar silenciar qualquer voz contrária.
O Brasil não enfrenta apenas uma crise política, institucional ou de segurança. Enfrenta uma crise de convivência, pertencimento e consciência cidadã.
Precisamos reaprender que convicção não é intolerância; identidade não é fanatismo; divergência não é inimizade; e liberdade de expressão não é licença para desumanizar.
A resposta exige o desenvolvimento conjunto da inteligência intelectual, emocional e cidadã: compreender os fatos, controlar os impulsos e reconhecer nossa responsabilidade pela preservação do ambiente coletivo.
Isso é Consciência Cidadã Participativa Transformadora: defender ideias com firmeza, participar, questionar e disputar caminhos sem abandonar a civilidade e o respeito à condição humana.
A verdade inconveniente é que nenhum país será verdadeiramente civilizado enquanto seus cidadãos precisarem destruir o outro para afirmar a própria identidade.
Quando uma camisa, um partido ou uma ideologia vale mais do que uma vida, não estamos demonstrando força ou consciência. Estamos revelando nossa incapacidade de viver em sociedade.
Nenhuma nação evolui além da inteligência de seus cidadãos. O futuro do Brasil é da nossa conta, e ele começa agora.
Confira o vídeo no nosso perfil no Instagram.
Por Paulo Sérgio Costa Pinto Cavalcanti, advogado, empresário, escritor, líder associativista e membro da ABROL Bahia, onde ocupa a Cadeira nº 30.
